domingo, 17 de março de 2013

A Era das Big Bands - Parte I


Neste post, falarei das big bands e, para melhor compreensão, decidi dividi-lo em três partes: a origem nos EUA, o sucesso e a decadência no Brasil.

A Origem nos EUA

Glenn Miller e sua big band

As big bands foram grandes bandas jazzísticas do séc XX que surgiram com a Era do Swing do jazz (anos 20 até o fim da Segunda Grande Guerra). Nasceram nos EUA e, a partir de meados dos anos 40, chegaram ao Brasil. Estas bandas costumavam ter cerca de vinte músicos ou mais: além da cozinha (piano, guitarra, baixo¹ e bateria), também tinham naipes de palhetas (saxofones altos, tenores e barítonos e, eventualmente, clarinete) e metais (trompetes e trombones) e todos eram conduzidos por um bandleader – que, na maioria das vezes, também escrevia os arranjos. Aqui no Brasil, o termo bandleader, em uma livre tradução, passou a ser conhecido como maestro.

Para entendermos a importância das big bands, precisamos falar das origens do jazz – estilo que nasceu da fusão entre a música europeia e a levada pelos escravos negros, mantendo boa parte dos elementos rítmicos e de improvisação da música africana. Ele surgiu em Nova Orleans, sul dos EUA, no início do século XX e tem dois pilares fundamentais: o ragtime e o blues. Em seus primórdios, o jazz era popular, alegre e feito para dançar.

Após a abolição da escravatura nos EUA (oficialmente em 1865), foram criados os Black Codes (leis para restringir os direitos dos negros) que, entre outras coisas, proibiam os tambores - na época da escravidão, já eram proibidos por alguns fazendeiros, temendo o seu uso como uma possível forma de comunicação entre os negros em caso de revolta generalizada. Os afro-americanos, então, criaram uma nova forma de tocar os instrumentos “brancos”, como o piano, com muito ritmo, quase como se estivessem tocando as suas percussões. Surgia o ragtime.

O ragtime, música popular dos salões de baile do sul dos EUA, era uma marcha com acompanhamento polifônico, feito com outra mão ou um segundo pianista, em ritmo tipicamente africano. Era executado pelos negros e mestiços (creoles) que conseguiram ter uma educação musical formal, técnica e teórica. Aqueles que não podiam pagar para aprender música ficavam com o blues - evolução do spirituals que surgiu nas igrejas segregadas dos negros. O blues também criou a característica blue note: adaptação na escala diatônica tradicional que diminui em meio tom as notas do terceiro e do quinto grau.

Mesmo libertos, os negros ainda sofriam forte discriminação e, segundo os Black Codes, podiam trabalhar apenas em algumas áreas, como, por exemplo, na música. Um pianista negro não era aceito em salas de concertos, mas poderia tocar em igrejas, bares, clubes ou bordéis.

Com uma colonização francesa e católica (a região foi comprada de Napoleão em 1803), Nova Orleans se diferenciava do resto protestante dos EUA com seus festivais de rua, música em velórios e a comemoração do Carnaval onde bandas marciais eram muito usadas. Nestas ocasiões, os adeptos do blues e do ragtime se encontravam e, enquanto alguns liam a partitura, os que não sabiam ler música tentavam se adequar a qualquer custo. Nascia o improviso - uma das características fundamentais do jazz. É importante dizer que, durante a escravidão, os negros eram encorajados a cantar, pois mercadores e donos de escravos acreditavam que a música e a dança os deixavam em melhor forma.

Na Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana (1861-1865), lutaram cerca de 180 mil negros que, durante o convívio militar, tiveram íntimo contato com as músicas marciais. Muitos aprenderam a tocar os instrumentos típicos das bandas: clarinetes, trombones, cornetas etc... Após o fim da guerra, os afro-americanos ficaram com os instrumentos velhos e avariados que o exército havia abandonado ou vendido a preço de ocasião. Talvez isto explique a grande profusão de sopros nas big bands e no jazz em geral.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) abriu caminho para a divulgação do jazz principalmente por duas razões. Em primeiro lugar, os músicos do exército norte-americano apresentaram o novo som à Europa (palco do conflito). Em segundo lugar, os EUA abriram uma base militar em Nova Orleans e, de acordo com os regulamentos do exército, os prostíbulos tiveram de fechar. Isso fez com que muitos músicos, desempregados, mudassem para Nova Iorque e também para a próspera e industrializada Chicago em busca de novas oportunidades de trabalho. Chicago acabou se tornando a nova capital do jazz.

Aproveitando o habitual clima de euforia pós-guerra, o jazz cresceu e se popularizou pelo mundo através das grandes bandas de swing. Nos anos 20, as big bands já eram um sucesso e, nos anos 30 e 40, tornaram-se a grande expressão do mercado musical norte-americano, levando enorme público a suas apresentações. As big bands eram baseadas em arranjos musicais que tanto podiam ser escritos como memorizados, “de ouvido”, já que muitos músicos de jazz não liam partituras. Estes arranjos tinham “janelas” com vários compassos dedicados aos improvisos individuais, dando liberdade criativa ao músico e proporcionando shows aos dançarinos. Uma forma de libertar o espírito que o negro, historicamente oprimido, havia criado. Este período ficou conhecido como a Era do Swing: dançante, vibrante, diferente, fora dos padrões tradicionais de até então. Uma das mais importantes orquestras foi a de Benny Goodman que, em uma atitude inovadora, formou a primeira big band mista (composta por músicos brancos e negros). Antes, as bandas eram compostas apenas por músicos brancos ou negros.

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945), entretanto, trouxe várias mudanças a um cenário que antes beneficiara as grandes orquestras populares: muitos músicos foram convocados para lutar ou, até mesmo, tocar no front e os custos das turnês, em solo norte-americano, tornaram-se quase proibitivos em época de esforço econômico dedicado totalmente à guerra. Um dos problemas era o racionamento de borracha e gás que dificultava o deslocamento de grupos numerosos e de seu equipamento, obrigando os músicos a viajarem em trens sempre lotados de soldados. Apagões e toques de recolher também prejudicavam os clubes e salões de dança e os instrumentos musicais deixaram de ser fabricados durante algum tempo. Além disto, o swing já estava se desgastando e o público parecia preferir as baladas românticas, que também faziam parte do repertório das big bands, interpretadas por crooners² como Frank Sinatra (como resistir a seu timbre aveludado?). Há também três outros fatos que podem ter contribuído para a decadência da Era do Swing nos EUA: nos relacionamentos, o baby boom; nos estúdios, a greve de 1942, e, nas apresentações ao vivo, a criação de uma taxa de entretenimento, em 1944.

Após o final da guerra, houve um aumento significativo da taxa de natalidade em vários países. O retorno dos soldados e a crença em dias melhores no mundo foi uma das causas do baby boom. Nos EUA, mais especificamente, também havia casais que, desde a Grande Depressão, estavam adiando os planos de terem filhos e aproveitaram o período de grande desenvolvimento econômico pelo qual passou o país, após 1945, oferecendo linhas de crédito para veteranos de guerra e amplo mercado de trabalho. Alguns acreditam que o baby boom possa ter afastado o público dos bailes, porque pais de crianças pequenas têm outras prioridades além de dançar.

Em 1942, o sindicato dos músicos norte-americanos promoveu uma greve por causa de questões relacionadas ao pagamento dos royalties das gravações e todos cruzaram os braços, recusando-se terminantemente a gravar. Isto levou a uma abertura do mercado fonográfico para os cantores, pois não eram sindicalizados. As gravações deste período costumavam ser acompanhadas por coros e as gravadoras tiveram que relançar discos antigos para sobreviver enquanto as big bands se mantinham bem longe dos estúdios e sem novos sucessos... A greve só acabou mesmo em 1944 e o episódio ficou conhecido como The 1942 Recording Ban.

Em 1944, entrou em vigor nos EUA um novo e curioso imposto de guerra que aumentava em 20% a conta de todos os frequentadores de locais que mantinham música para dança e/ou cantada! Clubes que forneciam música estritamente instrumental e que não fosse para dança estavam isentos. Se alguém se levantasse para dançar, 20% a mais seriam cobrados; se alguém cantasse, mais 20%... O percentual caiu para 10% em 1960 e somente acabou em 1965. Historiadores acreditam que este imposto estimulou a aparição do bebop – uma nova e contemplativa forma de jazz, instrumental, não dançante, com grupos menores, longos improvisos, pouquíssimos arranjos, grande sofisticação harmônica e complexidade rítmica, elitizando um estilo que, em sua origem, era popular.

Historiadores também afirmam que o desaparecimento do importante bandleader e trombonista Glenn Miller, em 15 de dezembro de 1944, marcaria o fim da Era do Swing e das big bands nos EUA. Depois da Segunda Grande Guerra, somente alguns poucos conseguiriam manter suas orquestras, a duras penas, como Duke Ellington e Count Basie. A partir daí, o jazz evoluiu para o bebop e deixou de ser dançante. Com o fim da guerra, a moda das grandes orquestras de baile chega ao Brasil e, no próximo post, falaremos disto.

¹ Algumas formações tinham, ao invés do baixo e da guitarra, tuba e banjo.

² Como eram conhecidos os cantores das big bands.



Na foto, Glenn Miller e sua bigband. O vídeo mostra a orquestra de Glenn Miller sob a regência de Tex Beneke, em 1946, tocando o clássico In The Mood (Joe Garland e Andy Razaf). Tex Beneke era cantor e saxofonista e trabalhou com Miller. Após o desaparecimento do bandleader, Tex conseguiu uma autorização dos herdeiros para prosseguir com a orquestra e o fez até 1950. Note as "janelas" no arranjo para os improvisos dos músicos, a pulsação da música para dança e o tamanho da banda com naipes de metais e palhetas e cozinha. Nesta época, Tex reproduziu a formação que Miller usava quando se apresentava com a orquestra nas frentes de batalha, adicionando um naipe de cordas. Mas a crítica recebeu mal esta inovação em solo americano e ele voltou à formação original, sem cordas.
Fontes: