domingo, 17 de março de 2013

A Era das Big Bands - Parte II


O Sucesso no Brasil

Orquestra Tabajaras com Severino Araújo

Com o término da Segunda Grande Guerra, em 1945, a euforia tomou conta dos países aliados e os anos subsequentes resgataram a exuberância e o luxo perdidos durante o sangrento conflito. Havia um amplo espírito de esperança, apesar de a bipolarização do mundo entre EUA e URSS - ou melhor, entre capitalismo e comunismo - continuar gerando tensões que, por vezes, colocaram o planeta à beira de um colapso nuclear. Este período, que durou cerca de cinquenta anos, ficou conhecido como Guerra Fria. O Brasil optou por alinhar-se aos EUA, passando a adotá-lo como nova referência cultural.

Os Estados Unidos propagavam pelo mundo uma nova forma de viver, o american way of life, através principalmente de suas indústrias fonográfica e cinematográfica: moda, carros, eletrodomésticos... Tudo enfim resumia o novo estilo de vida pós-guerra, festejando o triunfo da modernidade aliado aos já tradicionais valores burgueses. Se, durante a Segunda Guerra, as mulheres foram praticamente obrigadas a se lançar no mercado de trabalho, porque os homens estavam nos campos de batalha, nos anos 50 viveu-se o “conforto pós-guerra”, havendo um retrocesso deste comportamento com sua volta ao clássico papel de mãe, dona-de-casa e esposa. Os fortes valores morais da década de 50 também dificultavam o convívio entre os jovens, pois não havia diálogo franco sobre sexo, os colégios mistos eram raros e a severa vigilância dos pais inibia o contato entre rapazes e moças, gerando muita curiosidade e expectativa. Nos eventos sociais, esta juventude reprimida podia se aproximar e interagir.

Politicamente, o fim da guerra também marcou o fim de quinze anos de ditadura Vargas no Brasil, mas Getúlio Vargas voltou à presidência em 51, através de eleições diretas, e suicidou-se em 54, “deixando a vida para entrar na História”, como escreveu em sua carta-testamento. A instabilidade política que se seguiu foi intensa, porém breve. Em 31 de janeiro de 1956, assumia Juscelino Kubitschek que encarnou todo o otimismo do final da guerra e trouxe um desenvolvimento rápido através de seu Plano de Metas (50 anos em 5), abrindo a economia brasileira ao capital estrangeiro e construindo uma cidade inteira no, até então inexplorado, Planalto Central. O período de seu governo foi chamado anos dourados e ele recebeu o modernoso apelido de presidente bossa-nova.

Do ponto de vista econômico, a Segunda Grande Guerra nos trouxe alguns benefícios e o País conseguiu acumular expressivo volume de reservas cambiais, havendo uma real melhoria no padrão de vida do brasileiro. A boa economia, o desejo de recuperar o conforto que lhes havia sido tirado durante o esforço de guerra e os costumes sociais da época fizeram eclodir uma demanda reprimida de consumo. A própria moda, no Brasil e em grande parte do mundo, foi influenciada por este novo ideário de vida e, com o fim da guerra e do racionamento de tecidos, a mulher do início dos anos 50 se tornou mais feminina e glamourosa, fazendo com que o New Look de Dior, lançado em 1947, se transformasse na silhueta símbolo dos anos 50 - uma cintura marcada com saias muito rodadas e volumosas que chegavam aos tornozelos. Metros e metros de tecido eram gastos na confecção deste modelo que ainda tinha acessórios luxuosos como luvas, saltos altos e joias. Uma moda feita, sob medida, para uma mulher que ansiava pela volta da sofisticação. Dior, que morou nos EUA durante a guerra, voltou à França para lançar a nova tendência.

Neste momento, floresce a produção intelectual e artística no País - alguns influenciados pelo nacionalismo; outros, pela cultura de massa importada dos Estados Unidos. As músicas norte-americanas começam a se destacar nas paradas de sucesso brasileiras (execução e vendagem) e isto passa a incomodar alguns críticos. Surgem, então, as primeiras big bands brasileiras: curiosamente, a mesma guerra que decretou o fim da era das big bands, nos EUA, marcou o início da nova febre aqui no Brasil – onde houvesse um palco e dançarinos dispostos a rodopiar pelo salão, lá haveria uma orquestra. Para a juventude, os bailes de debutantes, de formatura e as festinhas em casas de família (os chás dançantes) passaram a ser uma importante e fundamental forma de integração com o sexo oposto. É interessante ressaltar que, no Brasil, o termo big band foi livremente traduzido como orquestra.

As orquestras tocavam em palcos nobres, como clubes e hotéis, e também em lugares mais populares, como gafieiras e dancings, e o eclético repertório poderia reunir Glenn Miller, Ary Barroso e Noel Rosa. O período compreendido entre o fim da Segunda Grande Guerra e o começo dos anos 60 produziu a mais sofisticada geração de músicos que o Brasil já teve: maestros, arranjadores, profissionais com formação internacional e grande conhecimento de harmonia e técnica. Aníbal Augusto Sardinha (o Garoto), Esmeraldino (cavaquinho), Orlando Silveira (acordeon), Portinho (clarinete), Severino Araújo (clarinete), Waldir Calmon (piano) e os maestros Leo Peracchi e Radamés Gnatalli, só para citar alguns.

Leo Peracchi e Radamés Gnatalli foram maestros da rádio Nacional: Peracchi era responsável pelo segmento erudito da rádio, e Gnatalli, pelo popular. Suas orquestras, com naipe de cordas inclusive, gravaram vários discos e acompanharam cantores famosos, mas nunca foram big bands no mais puro sentido da expressão, pois não tocavam em bailes e os improvisos musicais não eram frequentes em seus arranjos. No entanto, é fundamental falar nestes dois gênios a quem a música brasileira tanto deve. Segundo músicos como Tom Jobim, Dory Caymmi e alguns historiadores, Peracchi e Gnatalli foram os grandes responsáveis por modernizar a orquestração popular brasileira, influenciando novos arranjadores. O disco Por Toda a Minha Vida, da cantora Lenita Bruno (1959), composto apenas por canções de Tom e Vinicius, teria sido um divisor de águas por causa dos surpreendentes arranjos de Leo Peracchi.

Podemos falar de várias orquestras de baile, que também costumavam lançar discos e trabalhar em rádios, como a do cantor El Cubanito que, apesar do apelido, era o brasileiro Álvaro Francisco de Paula. Álvaro montou uma big band de ritmos afro-cubanos muito popular na década de 50 e chegou a gravar, com o pianista Waldir Calmon, o enorme sucesso Cao, Cao Mani Picao (J. Carbó Menendez). Outra orquestra de grande prestígio era a do maestro Ivan Paulo, mais conhecido como Maestro Carioca que, além dos bailes, tocou na rádio Nacional e, posteriormente, na rádio Tupi. No Dancing Brasil, atuava a Quincas e os Copacabana e, reinando absoluta no estilo gafieira, a do trombonista Raul de Barros.

Mas nenhuma big band foi tão famosa e longeva no Brasil como a Tabajaras do maestro e clarinetista Severino Araújo. A Tabajaras sobreviveu à decadência do rádio, que indiretamente acabava por promover o nome de suas orquestras contratadas, lançando-se em intermináveis turnês pelo país. A administração rigorosa de seu bandleader também ajudou a manter o grupo coeso ao longo dos anos. Ela se destacou pela excelência de músicos formados na exigente escola do frevo e inovou, trazendo ritmos genuinamente brasileiros, como o chorinho e o samba-canção, para o público dos salões de baile em imponentes arranjos e improvisos e acabou por adaptar o estilo das big bands à nossa realidade.¹

Talvez o(a) leitor(a) estranhe o fato de eu não ter mencionado a orquestra de meu pai, Waldir Calmon, mas esta não era a tônica de seu trabalho. Ele usava a formação menor, o conjunto, com muito mais frequência.

No próximo post, falaremos sobre os motivos que levaram ao declínio das big bands (ou orquestras de baile) no Brasil. 

¹ Antes da moda das big bands no Brasil, o regional era o formato mais constante de grupo musical. Apenas com instrumentos acústicos, era normalmente composto por violão de sete cordas, violão de seis cordas, bandolim, flauta, cavaquinho e pandeiro.


Na foto acima, orquestra Tabajaras sob o comando de seu maestro Severino Araújo. O vídeo mostra o choro Espinha de Bacalhau (Severino Araújo) em solo espetacular de sax alto - infelizmente, o nome do saxofonista não foi citado e, apesar de minhas buscas na internet, não consegui identificá-lo. Se alguém souber o nome do solista, por favor, comunique-se comigo, pois faço questão de sempre dar o crédito ao artista. Podemos perceber o arranjo típico de big band para este ritmo bem brasileiro.
Fontes:
Livros:
  • Coleção Nosso Século – Vol 4 (A Era dos Partidos), SP, Ed Abril, 1980
  • MARANHÃO, Ricardo, O Governo Juscelino Kubitschek, SP, Ed Brasiliense, 1988, 5ª edição
  • MOSTARO, Carlos Décio /e outros/, História Recente da MPB em Juiz de Fora – 1º tomo, MG, Ed Independente, 1977
  • ALMEIDA, Rui Gomes de, Ideias e Atitudes, RJ, Livraria José Olímpio Editora, 1965
  • CARDOSO, Míriam Limoeiro, Ideologia do Desenvolvimento (Brasil: JK-JQ), RJ, Ed Paz e Terra, 1978, 2ª edição
  • AQUINO, Rubim Santos Leão de /e outros/, História das Sociedades Modernas às Sociedades Atuais,  RJ, Ed Ao Livro Técnico, 1978
  • LAMBERT, J., América Latina – Estruturas Sociais e Instituições Políticas, Cia Ed Nacional, SP, 1969


Jornais:
  • BÁRBARA, Danúsia, “Para Ler e Relembrar”, JB, RJ, 27/06/1975, caderno B, pag 01
  • SCHILD, Suzana, “Feito Para Dançar – o Som de Waldir Calmon Continua na Praça”, JB, RJ, 02/07/1979, caderno B, pag 01
  • O Silêncio de um Som Feito Para Dançar”, JB, RJ, 12/04/1982, caderno B, pag 01
  • BREAN, Denis, “Waldir Calmon”, Gazeta Esportiva, SP, 29/03/1960, coluna O Rádio e a TV, pag 07


Revistas:
  • Música Para Dançar – Segredo Simples de Waldir Calmon”, Revista do Rádio, RJ, 29/05/1965, pag 34
  • O Sucesso do Cantor Fernando Barreto”, Revista do Rádio, RJ, 07/06/1957, pag 28
  • TÁVOLA, Arthur da, Revista Amiga, RJ, Ed Bloch, 28/04/1982, última pág


Entrevistas com frequentadores de bailes de orquestras


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