sábado, 18 de março de 2017

Guilherme Arantes

Brincar de Viver

     Guilherme Arantes está comemorando 40 anos de uma bem-sucedida carreira: seu primeiro grande sucesso foi Meu Mundo e Nada Mais, tema do protagonista Rodrigo (José Wilker) na versão original da novela Anjo Mau (Globo, 1976). Guilherme sempre foi um compositor criativo e talentoso e nos brindou com pérolas como a alto astral Deixa Chover e a incrível Aprendendo a Jogar, interpretada magistralmente por Elis Regina em uma das que considero melhores gravações de música brasileira de todos os tempos. Mas a minha preferida, no entanto, é outra, uma de suas poucas parceiras e com a qual tenho uma pequena história: Brincar de Viver (John Lucien – Guilherme Arantes).
      Em uma noite de junho de 1983, fui a uma daquelas festas de aniversário de crianças feitas mais para adultos: vários pais e amigos na espaçosa sala do apartamento enquanto a pequena aniversariante, eu, seus irmãos e amiguinhos ficamos no quarto, brincando - mesmo com dezoito anos, eu ainda adorava ficar no meio da criançada. A TV estava ligada na Globo e, naquela noite, estreava o musical Plunct, Plact, Zum. Na realidade, ninguém estava assistindo a nada no meio de tantos jogos, pulos em cima da cama, gritaria... Porém, em um determinado momento, ouvi uma linda melodia e, como estava de costas para a televisão, me virei e vi Maria Bethânia, toda de branco e parecendo um anjo, cantando com um belo coro de crianças e eu, ali, também cercada de crianças por todos os lados. Elas não estavam cantando, é verdade, mas deixavam a alegria exalar pelo ar. Eu havia perdido meu pai há pouco tempo, atravessava uma difícil fase emocional e aquilo aqueceu meu coração. No meio de tanta algazarra, o mundo parecia ter parado, por alguns minutos, somente para eu ouvir que “a história não tem fim / Continua sempre que você responde sim / À sua imaginação / A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não / E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho / Como sou feliz, eu quero ver feliz / Quem andar comigo, vem.”
       Parabéns, Guilherme, e muito obrigada!


     Este é o vídeo de que falei acima. Comparando com os de hoje em dia, parece tosco, mas era o que de mais moderno tínhamos em 1983. Nada disto compromete, porém, a beleza da música e da letra, totalmente atemporais.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Show Delicado

Marcia Calmon & Tranka em show intimista


     Devido ao sucesso, voltaremos ao Panorama Piano Bar para apresentar nosso show Delicado! Somos apenas Tranka Oliveira (teclado e violão) e eu no palco, interpretando canções que, de uma forma ou de outra, tiveram um significado especial em nossas vidas. Além da música que dá nome ao show, de Waldir Azevedo e Ary Vieira, teremos Odeon (Ernesto Nazareth e Vinícius de Moraes), Papel Marchê (João Bosco e Capinam), Pelo Telefone (Donga), Ela é Carioca (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), Serrado (Djavan), Ave-Maria no Morro (Herivelto Martins), Qui Nem Jiló (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga), Babalu (Margarita Lecuona) e muito mais!

    Delicado será apresentado no próximo dia 12 de novembro no Panorama Piano Bar (Leblon, RJ) que faz jus ao nome com uma belíssima vista da praia e do Cristo Redentor. A casa serve petiscos, mas também tem restaurante, com um elogiado menu, para quem prefere jantar. O Panorama aceita pagamento em dinheiro, cartões de débito e cheques, porém NÃO trabalha com cartões de crédito. Será uma grande alegria receber todos vocês lá! E peço imensas desculpas por não ter tido tempo para fazer novos posts no blog. Em breve, voltarei com mais assuntos ligados à música. Um grande abraço!

Data: 12 de novembro, sábado
Horário: 21:30hs (as reservas são válidas até 21:00hs). O show começará rigorosamente no horário
Endereço: Panorama Piano Bar (cobertura do hotel Mercure na rua João Lyra, 95/19° andar, Leblon, RJ)
Couvert: R$ 30,00 por pessoa
Reservas: trankaemarcia@gmail.com
Classificação etária: livre
Pagamento: O Panorama Piano Bar NÃO aceita cartões de crédito. A casa só trabalha com cartões de débito, dinheiro e cheque
Estacionamento: o hotel Mercure tem estacionamento, mas não sei informar as tarifas.


     Babalu, de Margarita Lecuona, é um motivo afro-cubano cujo primeiro registro consta de 1939 e foi gravado por nomes como Desi Arnaz, Yma Sumac, Celia Cruz e Dalva de Oliveira (em versão para o português). A letra fala de um ritual de santeria oferecido ao orixá Babalu (ou Xangô, segundo alguns tradutores) e é escrita em um espanhol misturado com o creole dos negros cubanos. No Brasil, a gravação de Ângela Maria e do pianista Waldir Calmon foi um estrondoso sucesso - talvez o maior da carreira de Ângela. Este registro é uma homenagem a meu pai, Waldir, e à belíssima voz de Ângela Maria.

Tranka Oliveira: arranjo e teclados
Marcia Calmon: arranjo, voz e edição de vídeo





     Estes dois vídeos foram gravados de smartphone durante o show Delicado, em julho de 2016. No primeiro, Tranka (violão) e eu estamos interpretando Mas Que Nada (Benjor) - Serrado (Djavan) - Flor de Lis (Djavan); no segundo, Tranka já está no teclado e tocamos Ela é Carioca (Jobim - Vinícius)



sábado, 14 de novembro de 2015

As Tragédias de Mariana e Paris

Assim Caminha a Humanidade


     Este é um blog sobre música e músicos, mas não consegui ficar indiferente aos últimos acontecimentos no Brasil e na França. Além da perplexidade pela gravidade dos fatos, também me surpreendi com os comentários de alguns, dizendo que nada foi divulgado sobre Mariana e que não devíamos nos importar tanto com um problema em outro país se temos outro tão grave aqui. E, quase como um desabafo, escrevi.
     Algumas pessoas têm comparando as tragédias de Minas Gerais e de Paris: uns falam da cobertura da mídia, e outros, da mobilização das pessoas. Desde que houve o rompimento da barragem, em MG, li e assisti a uma ampla cobertura da imprensa sobre o assunto. Já ouvi a opinião de vários especialistas, prognósticos, estatísticas... E amplamente divulgado na mídia escrita e falada. Só não vi o posicionamento das autoridades competentes e a nossa presidente se preocupou em avaliar a situação apenas uma semana depois. Os políticos, estes sim, encastelados no poder e lutando para não perdê-lo. Parece que isto é o mais importante no meio do caos que se instalou na região de Mariana.
     Comparar as duas tragédias e exigir que optemos por uma ou por outra é colocar o ser humano no pior degrau de evolução, pois não somos somente sim ou não, certo ou errado, isto ou aquilo. Temos vários matizes, várias opiniões e vários sentimentos. Somos capazes, sim, de sofrer por uma tragédia como a de Minas e por uma carnificina como a de Paris. É natural que a mídia mundial dê mais destaque ao ato terrorista, pois ocorreu em um país que sempre foi um exemplo internacional de igualdade e liberdade de expressão. Além do mais, o Estado Islâmico (EI) está ameaçando o planeta inteiro e ataques como os de ontem podem acontecer em qualquer lugar. É um sinal de alerta máximo. As forças armadas francesas, norte-americanas e russas estão na Síria, tentando combater o EI e, na minha opinião, isto já configura uma guerra.
     Por favor, não vamos competir para ver quem está sofrendo mais ou qual é a maior tragédia. Vamos aproveitar para comparar a resposta das autoridades diante das duas catástrofes e exigir de nossos políticos ações rápidas e eficientes sempre. Não gastemos nossas forças em bobagens. Vamos nos concentrar no que é realmente importante, sem discussões inúteis entre nós mesmos. A hora é de união e de cobrança a quem tem a responsabilidade de zelar pelo nosso patrimônio - seja ele histórico, moral, financeiro. No meu coração, há espaço para vários sentimentos, vários quereres e estou igualmente triste por todos os acontecimentos e pelos rumos que o mundo está tomando. E, caso alguém ainda não tenha visto na mídia, ontem também aconteceu um terremoto de sete graus na costa sudoeste do Japão (com alerta de tsunamis). Ainda não se tem notícias sobre os danos. Também me solidarizo com o povo japonês e com todos que estão sofrendo neste mundo horroroso que estamos deixando para as gerações mais novas.



     Creio que este vídeo é apropriado para a ocasião, pois o inesquecível Louis Armstrong canta a belíssima What a Wonderful World (Bob Thiele - George David Weiss) depois de algumas frases em que fala, entre outras coisas, de poluição.



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Vídeo dos Anos 80

Marcia Calmon e Outras Cantoras da Noite Carioca


     Este vídeo mostra duas participações minhas em programas na extinta TVE (Rio de Janeiro). Eles foram gravados em fita VHS que, com o passar dos anos, ficou em péssimo estado. Só consegui salvar alguns pedaços que foram convertidos para P&B por causa da péssima definição de cor.
      O primeiro programa foi em outubro de 1985, cujo nome não me lembro, e fizeram uma pequena matéria sobre o meu trabalho e minha vida pessoal. Na parte filmada na Gafieira Estudantina, minha mãe e eu cantamos Sonho Meu (Ivone Lara - Délcio Carvalho) com a Orquestra Waldir Calmon que, depois da morte de meu pai, passou a ser administrada pela viúva e pelos dois filhos. O outro cantor da banda, Anderson, fez uma participação no refrão. No começo, canto Madalena (Ivan Lins - Ronaldo de Souza) e a voz masculina em off, narrando, é de Oswaldo Sargentelli.
     O segundo foi um programa de entrevistas chamado 1986 e gravado em janeiro do mesmo ano. Eu já havia participado do mesmo programa no ano anterior, quando se chamava 1985 - há inclusive um vídeo em meu canal no YouTube. O 1986 era apresentado por Ziraldo e Elizabeth Camarão e, neste dia, o tema foi O Breve Brilho da Noite - somente com cantoras da noite do Rio de Janeiro. As convidadas foram: Áurea Martins, Celeste Lassaval, Rose Valentim, Fátima Regina e eu. As músicas cantadas neste programa foram: Pela Rua (Dolores Duran - Ribamar), Rio Antigo (Chico Anísio - Nonato Buzar), Demais (Tom Jobim - Aloísio de Oliveira), Dindi (Tom Jobim - Aloísio de Oliveira), Meiga Presença (Paulo Valdez - Octávio de Moraes), Volta (Lupicínio Rodrigues) e É Com Esse Que Eu Vou (Pedro Caetano). Ao piano, Anselmo Mazzoni. Espero que gostem!



domingo, 13 de setembro de 2015

Downloads

Inéditas de Marcia Calmon & Tranka

    É com grande alegria que posto os links para os downloads de nossas composições. Estamos começando com apenas três, mas em breve colocaremos mais canções. Você pode ouvi-las e, se gostar, clicar no carrinho para fazer o download no formato MP3, MP3 (320) ou FLAC Files. A seguir, a ficha técnica de cada música: 

(Canção Pro) Nosso Tom (Tranka Oliveira)
Tranka compôs esta música em homenagem ao compositor e amigo Tom Jobim, com quem conversava horas a fio na Churrascaria Plataforma (Leblon, Rio de Janeiro).
arranjo: Marcia Calmon e Tranka
voz e mixagem: Marcia Calmon
teclados e violão: Tranka Oliveira


Sentidos (Marcia Calmon & Tranka Oliveira) 
arranjo: Marcia Calmon e Tranka
voz e mixagem: Marcia Calmon
teclados: Tranka Oliveira


O Sol (Marcia Calmon & Tranka Oliveira)
arranjo: Marcia Calmon e Tranka
voz, back-vocals e mixagem: Marcia Calmon
teclados: Tranka Oliveira

Espero que gostem! Um grande abraço!



Vídeo de (Canção) Pro Nosso Tom (Tranka Oliveira) no YouTube



Vídeo de Sentidos (Marcia Calmon - Tranka Oliveira) no YouTube.



Vídeo de O Sol (Marcia Calmon - Tranka Oliveira) no YouTube.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Minha Voz, Minha Vida

Como Manter a Voz Sempre em Bom Estado?




     Muitos cantores, profissionais em início de carreira ou amadores, me perguntam qual a melhor forma de manter a voz sempre em boas condições. Ficam confusos talvez pela enxurrada de dicas que encontram por aí: conhaque, própolis, gengibre, maçã... Canto profissionalmente desde 1985 e já fiz quase tudo que me indicaram. Quando comecei, alguém me disse que comer cebola crua “abria a voz”. Pois bem, eu comi. E comi muitas. Foram dúzias de saladas de cebolas cruas antes dos bailes. O máximo que consegui foi afastar a banda inteira cada vez que me virava para pedir tom. Por melhor que seja a nossa higiene bucal, o cheiro da cebola crua não sai. Talvez só com gargarejos de soda cáustica...
     Sempre li muito a respeito para tentar tirar o melhor proveito de meu aparelho fonador. Acho que isto e minha experiência podem ajudar um pouco. Primeiro, vamos entender rapidamente como funciona a formação da voz: ela é produzida através de um som básico gerado pelo ar que sai dos pulmões e passa pelas pregas vocais que são localizadas na laringe (espécie de tubo alongado que fica no pescoço). Antigamente, as pregas vocais eram chamadas de cordas vocais, mas elas não são cordas! São duas dobras, formadas por músculo e mucosa, paralelas ao solo. Quando emitimos um som, elas vibram, muito ou pouco, dependendo do timbre: quanto mais agudo, mais elas terão de vibrar. O som produzido na laringe ainda não é a voz que ouvimos. Antes, ele passará por várias estruturas em nosso corpo para amplificá-lo até sair pela boca. Estas estruturas são chamadas de caixas ou cavidades de ressonância e estão presentes no tórax, pescoço e cabeça.
     Pelo breve exposto, podemos deduzir que o ato de cantar depende de uma boa condição física, já que grande parte de nosso corpo está comprometido com a formação da voz e que, principalmente, nosso instrumento de trabalho não pode ser comprado ou trocado, como uma guitarra ou um teclado. Portanto, a minha resposta, quando me perguntam se tenho algum truque para manter a voz em bom estado, é “tenha uma vida saudável!” Faça exercícios aeróbicos, para desenvolver sua capacidade pulmonar, e de resistência para não criar tensões em áreas do ombro e pescoço devido ao atrofiamento da musculatura. Pelo mesmo motivo, faça exercícios vocais regularmente, pois a emissão da voz envolve vários músculos específicos e músculos trabalhados sempre respondem melhor.
     Não fume, pois o muco que o cigarro produz envolve as pregas vocais, dificultando sua vibração – daí o timbre mais grave dos fumantes. O muco também pode obstruir algumas caixas de ressonância de seu corpo (lembre-se que elas amplificam o som), tornando o timbre “opaco”. Gripes e resfriados são inimigos de quem canta e, por esta razão, tomo anualmente a vacina. Nada pior do que uma constipação nasal para entupir várias de nossas cavidades de ressonância...
     Beba sempre muita água (em temperatura ambiente) para manter a saúde de suas vias respiratórias e a hidratação das mucosas. A hidratação se faz de forma direta, umedecendo as mucosas, e indireta, quando a água é absorvida pelo estômago e volta para o organismo – mas este processo é mais lento. Esqueça as bebidas alcoólicas, pois elas dão uma falsa sensação de aquecimento na garganta e ainda ressecam nossas mucosas. Algumas pessoas acham que, quando estão com dor de garganta, o álcool ajuda. Não, o álcool nunca ajuda. Ele apenas “anestesia” e o cantor acha que melhorou, começa a cantar, a forçar e, no dia seguinte, está bem pior.
   Como a performance vocal depende de nosso estado físico, alimente-se adequadamente e durma bem, muito bem. O descanso é importantíssimo para um bom desempenho.
   Depois que cantamos, nossa garganta está super aquecida. Portanto, evite correntes de ar e afins. E ela não fica aquecida apenas quando cantamos. Basta falarmos. E quanto a falar, procure não falar alto.
     Em resumo: não adianta nada lembrar-se de sua voz apenas na hora do show. Nenhum truque mágico fará um corpo debilitado ou uma garganta mal tratada produzir uma boa voz. A maçã está na moda entre os cantores, mas ela não faz milagres: é uma ótima fruta detox, limpando o organismo, mas pouco adiantará se você estiver com muito muco. Além, é claro, de dar uma fome danada e cantar com fome é complicado...
    A única coisa que realmente ajuda antes de uma apresentação é o aquecimento vocal. Sim, aqueles exercícios que os professores nos ensinam. Eles são fundamentais! E, durante a função, beba água não gelada – principalmente se o clima estiver seco ou o ambiente tiver ar-condicionado. O resto é pajelança.
   Se, depois de tudo isto, você ainda quiser ser um cantor profissional, parabéns! Bem-vindo ao clube! E lembre-se: se você tratar a sua voz com carinho, ela poderá lhe trazer belas alegrias.


     Esta música se chama Minha Voz, Minha Vida (Caetano Veloso) e foi gravada por Gal Costa, em 1982, no vinil Minha Voz. Este vídeo é de uma apresentação em 2013 e quem está no violão é Pedro Baby - filho de Baby do Brasil (ex-Consuelo) e Pepeu Gomes.




domingo, 7 de abril de 2013

Parabéns, Tranka!

Aniversário de um dos Mais Geniais Músicos que Conheço


     Abril é o mês de aniversário de uma das pessoas mais talentosas que a nossa música já conheceu. Quero fazer uma justa homenagem a este que só nós, músicos e cantores, conhecemos.
     Tranka nasceu Tancredo e, ao contrário do que muitos pensam, o seu apelido não tem nenhuma relação com o nome de batismo. Ainda criança, sofreu um sério acidente em uma porteira e, a partir daí, quando lhe perguntavam o motivo de todos aqueles machucados, ele respondiaa tranca! Muitos tempo depois, a cantora Marlene, com quem trabalhou por mais de trinta anos, sugeriu que trocasse o c pelo k para ficar, digamos, mais artístico...
    Tranka nasceu em Valença, interior do estado do Rio de Janeiro, e aprendeu música com seu tio, maestro da banda da cidade, e seu primeiro instrumento foi a requinta. Aos dezenove anos, veio para a capital tentar a vida como músico. Mesmo com todas as dificuldades que uma cidade grande oferece a um rapaz do interior, conseguiu fazer ótimos contatos graças ao seu imenso talento e acabou ganhando o mundo: em 76, fez uma turnê com o cantor caribenho-norte-americano Harry Belafonte e morou em vários paísessempre tocando e/ou ensinando música.
     Em 78, um grupo de empresários queria abrir uma grande gafieira no Leblon, bairro nobre da zona sul do Rio, aproveitando o boom que o estilo teve devido ao sucesso da novela Pai Herói em que havia uma gafieira chamada Flor-de-Lis cuja proprietária era a personagem de Glória Menezes. O sucesso foi tanto que a Flor-de-Lis saiu da ficção e foi para o bairro de São Conrado, próximo ao Leblon, sob a batuta do competentíssimo maestro Cipó. Tranka foi chamado pelo grupo de empresários para conhecer o espaço e avaliar a possibilidade de montar uma casa dançante com orquestra e tudo o mais. Mas ele sugeriu outra coisa: ao invés de um lugar que, com o fim da novela, estaria fadado ao esquecimento, por que não fazer uma casa de espetáculos folclóricos brasileiros com muito luxo e estrutura grandiosa? E assim nasceu o Plataforma. Sim, aquele Plataforma que também tinha uma churrascaria, na parte de baixo, onde o inesquecível maestro Tom Jobim passava a maioria de suas tardes e onde Tranka o conheceu e tornaram-se amigos. A concepção da casa de espetáculos foi do Tranka, com aquela imensa passarela, e todos os shows, até hoje, têm a sua assinatura. A gafieira Flor-de-Lis acabou praticamente quando a novela terminou e o Plataforma continua no mesmo lugar desde então...
   Tranka havia conhecido um dos futuros donos do Plataforma, Alberico Campana, na noite carioca. Aliás, na noite conheceu muita gente boa: Alcione, Emílio Santiago, Djavan, Ivan Lins, Luizinho Eça, Luiz Carlos Vinhas dentre tantos. Mas todos ainda desconhecidos, em começo de carreira. Ele tinha um famoso apartamento, no Posto Seis de Copacabana, que ficava com as portas abertas o tempo todo. Segundo o próprio, era umaverdadeira bagunça, mas recebia quem precisasse de um lugar para dormir. Passaram por lá Celinho Trompete, Wagner Tizo, Milton Nascimento, o guitarrista Írio de Paula e outros mais.
     Nesta época, também conheceu Marlene (a maior!). Ela estava procurando um grupo novo para acompanhá-la no show Te Pego Pela Palavra quando conheceu o grupo Relax na boate Number One, em Ipanema: Eduardo Prates (piano), Toninho Costa (guitarra), Tranka (baixo), Chiquinho Brasão (bateria) e Suely, Zaida e Octávio César (vocais). Marlene ficou encantada com os modernos arranjos e contratou-os. Bem, o fim desta história todos conhecem - o show, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho, foi um enorme sucesso e é considerado um dos melhores de todos os tempos. E Tranka acabou se tornando o maestro oficial de Marlene.
     Aqui, faço um aparte. Tranka começou tocando requinta, passou pelo clarinete e foi ao sax e à flauta. Daí, partiu para o baixo (que tocava quando conheceu Marlene) e, não satisfeito, foi para o violão, o teclado e para o piano (sim, uma pequena diferença chamadamão esquerdaque requer muito mais estudo na transição dos teclados arranjadores para o piano acústico). Com Harry Belafonte tocou guitarra; com Gonzaguinha, baixo; com Emílio Santiago, sax e flauta... E os baixistas mais consagrados dizem que poucos dominaram este instrumento como Tranka. Acredito, pois nunca conheci ninguém tão versátil e com tamanha musicalidade. As harmonias que cria são de um bom gosto extremo e poucas vezes vi alguém com tamanha capacidade para criá-las. E, quem é do ramo, sabe que harmonia musical é um assunto espinhoso... Os arranjos que escreve também são lindos e é impressionante a sua rapidez. Como se não bastasse, é capaz de reconhecer acordes sem o apoio de nenhum instrumento, pelo ouvido. Quando presenciei isto, na primeira vez, pensei que estivesse brincando conosco. Estávamos com alguns jovens franceses, em Saint Martin, onde moramos, e ele ouviu uma música e começou a escrever sua harmonia na hora, apenas com o auxílio de uma caneta e um papel. Todos nos entreolhamos, surpresos. Parecia que estávamos assistindo a um show de David Copperfield. Agora me acostumei.
    Mas nada disto parece suficiente e Tranka ainda compõe. Pois é. Foi gravado pela primeira vez em 78, pela cantora Celeste, em seu disco Cinco e Triste da Manhã: Ronda Tristeza (Tranka) e Sinal de Solidão (Tranka e Jenny). Mais tarde, fez uma parceria bem sucedida com Toninho Nascimento e Noca da Portela, compondo sucessos como Celular, Ilumina e Muambeiro, entre outras.
Mas não poderia acabar este post sem contar uma história muito curiosa, envolvendo Tranka e meu pai, o pianista Waldir Calmon. Tranka é um grande talento, mas desligado de tudo. Sua cabeça vive em outra dimensão e é difícil fazê-lo prestar atenção aos assuntos corriqueiros e meu pai era um homem extremamente rígido no que dizia respeito ao trabalho.
     Alguns poucos anos depois de chegar à capital, meu pai o convidou para tocar sax em um baile na Tijuca, na rua Barão de Ubá. Tranka não entendeu direito, mas tem (até hoje) o péssimo hábito de não perguntar e tentar resolver tudo sozinho. Como não conhecia bem a cidade, confundiu Barão de Ubá com Bangu e seguiu rumo à zona norte. Para quem não conhece, os bairros Tijuca e Bangu são muito, mas muito distantes um do outro. Para piorar, chovia. Chovia como se o mundo fosse acabar e Tranka pegou o ônibus, com seu instrumento, para Bangu. Quando chegou em Bangu, viu o erro e lembrando-se do nome correto da rua, finalmente pediu uma informação. Pegou outro ônibus, debaixo do temporal, e seguiu para a Tijuca. Depois deste nada agradável passeio turístico pelo Rio, conseguiu chegar ao clube, encharcado e na metade do baile. Pensou que poderia chegar discretamente, montar o seu instrumento eatacarcomo se nada houvesse acontecido. Mas, na hora de montar o sax, percebeu que havia esquecido a boquilha e falou a um músico, sempre muito discretamente e na esperança de não chamar a atenção de Waldir Calmon, que iria buscar em casa, rapidinho, a peça que faltava. Concluindo a história, meu pai, na mesma hora, mandou pagar-lhe o cachê com a condição de que ele fosse embora naquele momento e nunca mais voltasse. E assim aconteceu. Depois, tornaram-se amigos e ficavam conversando de madrugada naqueles papos de músicos que saíam de suas boates e acabavam todos se encontrando. Conversavam horas a fio, mas nunca tiveram a coragem de tentar trabalhar juntos novamente.
    Tranka, espero que você faça muitos outros aniversários, pois a música precisa de pessoas transbordantes de talento como você! Parabéns pela pessoa que você é.
       Abaixo, um vídeo com a dupla Marcia Calmon & Tranka, interpretando Pedacinhos do Céu, de Waldir Azevedo. Há mais vídeos nossos no YouTube: Canal de Marcia Calmon no YouTube