quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Centenário de Waldir Calmon


Cem anos de muita música!

Dia 30 de janeiro de 2019, meu pai, o pianista e compositor Waldir Calmon, faria 100 anos! Inúmeras lembranças me vêm à cabeça, do pai e do artista, e se embaralham, num misto de saudade e orgulho. Fui agraciada com um pai dedicado, amoroso e extremamente cuidadoso – seus excessos, por vezes, me irritavam, embora lá, bem no fundo, eu sempre soubesse que era amor. Suas idiossincrasias me confundiam, pois o homem que me ensinou as primeiras notas na pauta era o mesmo que fez de tudo para eu não ingressar na carreira artística e que também ficava todo bobo quando me via pegar algum instrumento e sair tocando. Creio que ele se identificava muito comigo quando via minha ânsia por saber, a curiosidade imensa que eu carregava dentro de mim e a minha paixão por desenhar e tocar. Eu sabia que poderia contar com ele para qualquer coisa e ele sabia que a recíproca era verdadeira. Infelizmente, não pude fazer nada para impedir o seu infarto, mas posso, ao menos, lutar para que o trabalho que ele fez, com grande amor, não morra também.

Para quem não conhece a extensão da obra de meu pai, fiz um site (www.waldircalmon.com) e uma página no Facebook (Centenário de Waldir Calmon), postando fatos e curiosidades da vida do artista e todas as homenagens que acontecerão no decorrer deste ano. 

Tentando resumir o seu legado, além de pianista e compositor, Waldir Calmon gravou cerca de 130 títulos - entre LPs, compactos, regravações etc -, mas foi com a série Feito para Dançar que ele atingiu a impressionante marca, para a época, de 100.000 exemplares vendidos em 1957. Ele também gravou, com a cantora Ângela Maria, o antológico Quando os Astros Se Encontram (Copacabana Discos, 1958) que tem, por sugestão de Waldir, a gravação original de Babalu (Margarita Lecuona) e talvez o maior sucesso de nossa querida sapoti.

A sua contribuição para o então incipiente mercado fonográfico brasileiro foi imensa:
   - Primeiro músico a gravar um long-play de dez polegadas na América do Sul com o vinil Ritmos Melódicos (Rádio, 1952).
   - Primeiro artista popular a lançar um disco de 12 polegadas no Brasil com a série Feito para Dançar.
   - Gravou, também pela Rádio, o primeiro disco estéreo genuinamente nacional, conforme matéria do jornal JB - coluna Discos Populares, de Mauricio Quádrio, em 29/11/1958.
  - Primeiro artista a conseguir uma tiragem de 100.000 discos em território nacional com a série Feito para Dançar.
  - Criou o disco para dança, sem intervalos entre as faixas, reproduzindo o som das boates da época e ideal para festas em casas de família.

Nos anos 1940, Waldir Calmon lançou o solovox: um pequeno sintetizador de três oitavas, monofônico e importado que era acoplado ao piano acústico, fazendo um som diferente. O solovox, fabricado pela Hammond Organ Co norte-americana entre 1940 e 1950, foi o precursor dos teclados eletrônicos em geral. Waldir também participou de filmes nacionais, como Hoje o Galo Sou Eu (Aloísio T. de Carvalho, 1958) e Com A Mão Na Massa (Luiz de Barros, 1958), e ganhou dezenas de prêmios por seu trabalho.

Em 1955, abriu sua própria casa noturna no Leme, RJ - a Arpège. O sucesso foi tanto que outra série de discos, Uma Noite no Arpège, surgiu. Nomes como Tom Jobim, Chico Buarque, Dóris Monteiro, João Gilberto e Ary Barroso, entre outros, apresentaram-se em sua boate. A Arpège entrou para a história da vida noturna carioca e da música brasileira. Dentre as muitas histórias, Vinícius de Moraes conheceu Baden Powell durante um show na boate e lá estreou o novato Chico Buarque, fazendo o show Roda-Viva com o MPB4 e Odete Lara.

Em homenagem a esta data tão especial, fiz um set com 41 minutos só de músicas da famosa Feito para Dançar (esta série ainda não foi disponibilizada para streaming ou venda). Clique aqui para ouvir. Ainda sobre as gravações de Waldir Calmon, muitos me perguntavam onde poderiam comprar ou baixá-las e eu, constrangida, não tinha muito o que falar. Agora, para minha alegria e após vários pedidos, a gravadora finalmente disponibilizou uma parte de sua obra para streaming e download na internet!!! É muito mais prático e econômico, pois você pode comprar o disco inteiro ou apenas a faixa individual! Se preferir, pode colocar as músicas em playlists de sites como Deezer e Spotfy e ouvi-las sempre que desejar! Há dez discos de Waldir Calmon na GooglePlay: as compilações Grandes Exitos, The Beat of Brasil, Seleção de Ouro – 20 Sucessos, Maringá e O Lounge Brasileiro, e os discos de carreira Samba Alegria do Brasil, Quando os Astros se Encontram, Mambos, Mambos 2 e Ritmos Melódicos 1.

Waldir Calmon também está concorrendo a uma placa pelo projeto Patrimônio Cultural Carioca - Circuito Rádio, oferecido pelo Instituto Funjor e pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Cada voto equivale a uma doação de dez reais e você pode votar quantas vezes quiser: basta fazer o depósito na conta da Funjor e enviar o recibo com o nome do artista votado. Os cinco primeiros artistas mais bem votados ganharão uma placa, falando de sua carreira, e a final será em março (mais detalhes no Facebook). O meu desejo é colocar a placa no lugar onde antes funcionava a boate Arpège, no Leme, RJ. Fiz um vídeo para divulgar a iniciativa que você poderá assistir no final deste post.

Quem quiser conhecer mais a fundo o trabalho de meu pai e, claro, ouvir muita música, por favor, visite o site www.waldircalmon.com. Ele nos deixou muito cedo, mas sua obra permanece bem viva!  Um abraço!  


Participação de Waldir Calmon no filme Hoje, o Galo Sou Eu! (1958) em que o pianista e seu conjunto tocam as músicas Concerto n°1 (Tchaikovsky), Polonaise (Chopin), Samba no Arpége (Waldir Calmon e Luís Bandeira) e, acompanhando a cantora Neusa Maria, Nova Ilusão (José Menezes e Luís Bittencourt). Hoje, o Galo Sou Eu! foi dirigido por Aloísio T. de Carvalho e seu elenco contava com Ronaldo Lupo, Liana Duval, Renata Fronzi, Pituca, Henriqueta Brieba, Procopinho e Luís Gonzaga, entre outros.



Apresentação de Waldir Calmon no programa Os Melhores da Semana (com patrocínio da Mullard Rádio e TV e da Casa Neno S/A), na TV Tupi dos anos 50. O filme original é mudo e por isso foi sonorizado com a gravação, de 1957, da música Samba no Arpége, de Waldir Calmon e Luís Bandeira. Nesta gravação de Samba no Arpége, Waldir toca piano acústico e solovox - que, no vídeo, podemos ver acoplado ao teclado do piano.


Vídeo que fiz para divulgar a participação de meu pai no projeto Patrimônio Cultural Carioca - Circuito Rádio. Os votos são através de doações para o Instituto Funjor que podem ser feitas no Banco Itaú:

- agência: 0706
- conta corrente: 04730-5 (A.A.A.A. Instituto FUNJOR)
- CNPJ: 18.741.152/0001-00
Depois, o comprovante deve ser fotografado e enviado, com o nome do artista votado, para funjortv@gmail.com . Desde já, agradeço o seu voto!!!

domingo, 30 de dezembro de 2018

Feliz 2019!!!


Fim de ano com Tom Jobim e Barry White


Este post tem duas finalidades: a primeira é dizer que, a partir de agora, a música que o maestro Tranka Oliveira compôs para seu amigo Tom Jobim, a bela (Canção) Pro Nosso Tom, está disponível em todas as plataformas digitais e o download pode ser feito na loja Google Play! Quem assina Deezer, Spotify, iTunes, e outros serviços de streaming de áudio, já pode colocá-la em sua playlist!

O segundo motivo pelo qual escrevo este post é desejar-lhes um 2019 maravilhoso, com muita saúde e paz – tão importante nos dias de hoje! Que todos tenhamos serenidade em nossos corações a fim de tomarmos as decisões mais acertadas para nossas vidas, o país e o mundo.

Para animar o fim de ano, nossa interpretação de um clássico do mestre Barry White: Love’s Theme! Este projeto era um desejo pessoal meu, com gravação do áudio e montagem de um vídeo repleto de citações a ícones da pop art dos anos 70 e a artistas que participaram, de uma forma ou de outra, de minhas infância e adolescência. Quem me conhece sabe do que estou falando e da importância que muitos tiveram, inclusive, em minha formação musical.

Eu era bem criança quando Love’s Theme, em sua gravação original, me arrebatou com suas cordas, trompas, guitarra com o "moderno" efeito wow-wow, seu maravilhoso arranjo... E, logo depois, Barry White começou a cantar, mantendo sempre o alto padrão de suas gravações com grandes orquestras e um extremo bom gosto. Eu admirava o seu trabalho instrumental, como também as músicas em que ele colocava sua belíssima voz ou o trio vocal feminino do qual sua mulher, Glodean, fazia parte. Mais do que uma simples gravação ou um vídeo, é uma sincera homenagem. O arranjo foi executado integralmente pelos teclados e elaborado por mim e Tranka Oliveira.
·      teclados: Tranka Oliveira
·      vocais, mixagem e edição de vídeo: Marcia Calmon
·      fotos de Marcia Calmon e Tranka: Adonay Pereira e Sergio Murilo

Abaixo, os nossos vídeos de Love's Theme e (Canção) Pro Nosso Tom, bem como a letra da música e o link para a Google Play. Um enorme abraço em todos vocês e um 2019 com muita música boa!



(Canção) Pro Nosso Tom (Tranka Oliveira)

Não, não chega de saudade, não
É o coração que diz pra mim
Não, não chega de saudade
Eu quero mais canções de Tom Jobim

Um coração magoado pela própria insensatez
Um samba desafinado porque o morro não tem vez
Lígia, Luíza, Bebel, Gabriela
A gente sabe quem é carioca só pelo jeitinho dela
Vem flauta, vem pinho prá cantar o meu amor
Faz falta um cantinho só pra ver o Redentor

Tom Jobim, a saudade não vai passar
Por toda a minha vida eu sei que vou te amar
Canções de Tom Jobim, Canção pra Tom Jobim

sábado, 8 de dezembro de 2018

Feliz Natal!!!


Muito obrigada e um feliz Natal!


Encerramos a temporada de nosso show Cantando em Qualquer Tempo, no maior astral, e agradeço muitíssimo pelo sucesso! Agora vamos preparar um show novinho em folha para 2019! Quero aproveitar também para desejar um Natal maravilhoso! Que haja mais tolerância e compreensão de que todos estamos no mesmo barco, ou melhor, no mesmo planeta e que nossa sobrevivência passa pelo respeito à natureza e a seus recursos que, um dia, possibilitaram à vida brotar das águas e desenvolver suas raízes em terra firme. Que os adultos reverenciem cada criança na face da Terra, compreendendo que o futuro está em seus pequenos corações, puros ou cheios de amarguras, dependendo somente do que lhes será oferecido. Um Natal iluminado!

 

Abaixo, três vídeos com canções natalinas: o primeiro e o terceiro são com a fantástica banda Earth, Wind and Fire – infelizmente sem o vocalista e fundador Maurice White: The First Noel e Jingle Bell Rock (Joe Beal & Jim Boothe). Acredita-se que The First Noel seja uma canção do séc. XVII e a origem da melodia ainda é um mistério. Em 1823, William B. Sandys (1792-1874) e Davies Gilbert (1767-1839) adicionaram a letra que conhecemos hoje em dia. O segundo vídeo é de uma canção que já postei no blog, porém em outra versão: Nat King Cole e sua filha Natalie cantam lindamente The Christmas Song (Merry Christmas To You), de Robert Wells e Mel Tormé. Um Natal maravilhoso e muito musical para todos! Grande abraço!




domingo, 4 de novembro de 2018

Show "Cantando em Qualquer Tempo" (3)

Novamente no Beco das Garrafas!


Antes de mais nada, quero me desculpar por não estar postando regularmente e sobre outros assuntos, mas não tenho tido o tempo necessário para me dedicar a nada que não sejam ensaios e apresentações. Graças ao sucesso do último show no Beco das Garrafas, retornaremos em 25 de novembro para a terminar a temporada do "Cantando em Qualquer Tempo"! Seremos novamente Tranka Oliveira (teclado e violão) e eu em cena, com participação especialíssima de minha mãe, Marta Calmon. 

- local: Beco das Garrafas 
- endereço: rua Duvivier, 37, Copacabana, RJ
- data: 25 de novembro (domingo)
- horário: 18:30 h
- preço único: RS 40,00 (o couvert deverá ser pago APENAS em dinheiro)
- participação especial: Marta Calmon

- RESERVAS: 21 98617 7293 (Whats App)
- projeto: Canções para a Melhor Idade
- foto: Adonay Pereira


Abaixo, o teaser do show:


Quanto ao show no Centro Cultural Artur da Távola, foi maravilhoso e todo filmado em HD! Postei alguns números em meu canal no Youtube (www.youtube.com/marciacalmon), como estes que vocês podem ver abaixo. Muito obrigada e espero contar com sua presença neste encerramento de temporada. Depois, só no ano que vem! Grande abraço!





No primeiro vídeo, a abertura do show com a música Rio (Menescal e Bôscoli). O segundo vídeo traz Linha de Passe (Bosco - Blanc - Paulo Emílio), e o terceiro, Onde Anda Você (Toquinho - Vinícius) e Papel Marchê (Bosco - Capinam). Mas tem muito mais no YouTube!

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Show "Cantando em Qualquer Tempo" (2)

Muito obrigada!!!


Agradeço muitíssimo pelo sucesso de nosso show Cantando em Qualquer Tempo, apresentado no Beco das Garrafas (Copacabana, RJ) em 22 de julho de 2018! A casa estava tão lotada que, infelizmente, algumas pessoas não puderam entrar. A energia entre nós e o público foi maravilhosa e esta é a razão de nosso trabalho e de tanta dedicação à música – mesmo em um mercado tão difícil como o brasileiro. Por causa da boa repercussão, vamos fazer o mesmo show, acresecentando algumas novidades, no Centro da Música Carioca Artur da Távola, na Tijuca, RJ.



  • data: 26 de setembro de 2018 (quarta-feira)
  • local: Centro da Música Carioca Artur da Távola, na Tijuca, RJ (rua Conde de Bonfim, 824)
  • horário: 16:00 h
  • preço: R$ 20,00 (meia) e R$ 40,00 (inteira). Cariocas e quem mora na cidade do Rio de Janeiro pagam somente meia, apresentando identidade e uma conta de luz ou gás. A compra dos ingressos só poderá ser feita em dinheiro.
  • participação especial: Marta Calmon
  • produção: Deyseh Lúcide Martis (projeto Canções para a Melhor Idade) 
  • foto do poster e vídeo promocional: Adonay Pereira
Abaixo, quatro vídeos: três de smartphones do show no Beco das Garrafas e o vídeo promocional do show que acontecerá no Centro da Música Carioca Artur da Távola. No primeiro, minha mãe, Marta Calmon, e eu estamos cantando Babalu (Margarita Lecuona) - esta música foi gravada no LP Quando os Astros se Encontram (Copacabana Discos, 1958), de Waldir Calmon e Ângela Maria. No segundo, minha mãe interpreta Resposta ao Tempo (Cristóvão Bastos - Aldir Blanc) e, no terceiro, uma compilação de algumas partes do show. Um abraço e, mais uma vez, meu muito obrigada!






sábado, 7 de julho de 2018

Show “Cantando em Qualquer Tempo” (1)


Marcia Calmon e Tranka Oliveira no Beco das Garrafas

Amigos, no próximo dia 22 de julho (domingo) e exatamente uma semana após o término da Copa do Mundo, Tranka Oliveira e eu apresentaremos o show Cantando em Qualquer Tempo!Tranka Oliveira (teclado e violão) e eu (voz) estaremos em cena, passeando pelos vários significados da palavra tempo: o tempo em que a genuína música brasileira começou a se delinear, o tempo em que o Rio de Janeiro era a capital cultural do país, o tempo dos romances, os tempos na música... O repertório inclui maxixes, chorinhos, sambas e outros estilos bem brasileiros, mas também faz concessões às músicas francesa, norte-americana e cubana. Minha mãe, Marta Calmon, fará uma participação especialíssima e nós duas, é claro, faremos uma homenagem a meu saudoso pai, o pianista Waldir Calmon!
·      data: 22 de Julho de 2018 (domingo)
·      local: Beco das Garrafas (rua Duvivier, 37, Copacabana, RJ)
·      horário: 18:30 h
·      preço único: R$ 40,00 por pessoa (couvert somente em dinheiro)
·      reservas: (21) 98617 7293 (telefone e WhatsApp)

Mais detalhes, fotos, vídeos etc no site www.marciacalmonetranka.com. Espero vocês lá! Um abraço!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um Pouco de Mim (1)

A Origem de Tudo



Postarei os seis primeiros textos que escrevi para a minha coluna no Jornal Banda da Banda, de Amparo, SP. A intenção era me apresentar para os(as) leitores(as) e fazê-los(ls) entender a importância da música em minha formação como cantora e ser humano. Espero que gostem! Um abraço!

Muito prazer! Meu nome é Marcia. Sou cantora, compositora, formada em Jornalismo e filha do pianista Waldir Calmon e da também cantora Marta Calmon que, solteira, usava o nome artístico de Marta Kelly. Minha mãe deixou de cantar quando engravidou e só voltou dezenove anos depois.
    
Para quem não conheceu o trabalho de meu pai, aqui um brevíssimo resumo: nos anos 50, Waldir Calmon foi talvez o artista que mais vendeu discos no Brasil e possuía um estilo inconfundível de tocar o piano, em oitavas. Seu repertório era composto, em sua maioria, por músicas dançantes e ele amava fazer os casais rodopiarem pelo salão. Quanto mais gente se levantava para dançar, mais feliz ele ficava. Seu conjunto (ou, mais raramente, orquestra) tocou em bailes pelo Brasil inteiro e revelou grandes músicos, como Milton Banana, Paulo Nunes, Rubens Ohana, Fernando Barreto e Humberto Garin, entre outros. Em sua vasta discografia, destaca-se a série Feito Para Dançar, com 12 volumes, cujos discos possuíam um lado de músicas corridas, sem intervalos, ideal para as festinhas em casas de família. Ele também teve um programa de TV durante dez anos, Ritmos S. Simon, e participou de filmes nacionais. E, para vocês entenderem os caminhos que me levaram à música, vou escrever um pouco sobre nossa família.

Morávamos no Rio de Janeiro, em uma rua de Copacabana bem tranquila (por mais incrível que isto possa parecer). Nossa rua, a Cinco de Julho, era agradável, arborizada e sempre encontrávamos alguns amigos de meus pais. Havia um que me chamava a atenção por causa de seu cachorrinho peludo (se não me falha a memória, um poodle branco). Quase todas as tardes, os encontrávamos. Meu pai e aquele senhor conversavam durante horas e eu adorava, pois ficava brincando com o bichinho. Hoje em dia, sei que o dono daquele belo cãozinho era Carlos Machado, o Rei da Noite, produtor de suntuosos espetáculos e revistas musicais. Mas ali estava somente um homem vestido com roupas simples, desfrutando da companhia de seu animalzinho de estimação.
    
Desde cedo, meu irmão, Marcus, e eu respiramos música! Havia instrumentos, caixas de som e todo tipo de equipamento pelo apartamento, enlouquecendo minha mãe que, em uma luta inglória, tentava escondê-los a todo custo. Certa vez, um daqueles antigos microfones de estúdio, que pesava cerca de uma tonelada, caiu em cima de meu pé e, sem exagero, quase quebrei alguns dedos. O microfone saiu ileso.
     
Já bem pequena, aprendi a dividir o espaço com o imenso piano preto – quando somos crianças, tudo parece maior – de meia cauda que fazia de cabana em minhas brincadeiras. Tínhamos uma vitrola Motorola, também imensa, daquelas que tocavam vários discos em sequência e rodava até 78 rotações. Quando a música tocava, eu dançava e em qualquer lugar: na nossa sala, na sala dos outros, na rua, na boate de meu pai...
    
A boate Arpège ficava na rua Gustavo Sampaio, no Leme (RJ), e meu irmão e eu, ainda crianças, só passávamos lá durante o dia. O Leme era famoso por suas sofisticadas casas noturnas que, junto com a Arpège, fervilhavam na elegante noite carioca: Drinks, Sacha’s, Fred’s, Plaza... onde talentosos músicos e cantores, como também personalidades brasileiras e estrangeiras circulavam, ostentando seus vestidos, ternos, joias e carrões. Meu pai compôs e gravou até uma música chamada Samba no Arpège (Waldir Calmon – Luís Bandeira) e lançou uma série de vinis, com três volumes, intitulada Uma Noite no Arpège. O majestoso piano Steinway, que reluzia absoluto em nossa sala, tinha sido da boate até ser trocado por um modernoso órgão elétrico Hammond: a princípio, um B2, mas meu pai não resistia a uma tecnologia e logo o trocou por um modelo mais atual, o B3.  Para dizer a verdade, com todas aquelas teclas, pedais, botões, alavancas e luzes, o instrumento mais me assustava do que convidava. Eu tinha sempre a impressão de que seria abduzida por ele a qualquer momento.
    
Voltando ao lar, lembro ainda de minha mãe gravando algumas músicas de Festivais da Canção com um gravador de rolo pesadíssimo - ela colocava o microfone em frente ao autofalante da TV e captava um som ruim, mas o suficiente para meu pai escutar e avaliar se valia a pena ou não colocar a canção em seu repertório dançante.
    
Fui crescendo e, aos poucos, o piano deixou de ser uma cabana de brinquedo para se tornar uma grande paixão. Aos oito anos, decidi que iria aprender a tocar. Porém, isto não estava nos planos de meu pai que desejava me ver formada em Medicina. Ele achava que eu era musical demais e deveria me proteger de uma carreira tão difícil como a música. Mas como explicar isto a uma criança tão determinada? Ele não explicou. Ele me enrolou:
     - Pai, quero aprender piano!
     - Não tenho tempo para ensinar, minha filha.
    - Mas a minha amiguinha tem uma professora de piano muito legal. Ela pode me dar aulas.
     - Ok, pode deixar. Eu mesmo vou lhe dar aulas.

E deu. UMA aula! UMA única aula! Comprei caderno de música, lápis fofo, borracha bonitinha... e tive UMA aula. Todas as vezes que eu reclamava, meu pai dava uma desculpa. Acabei pegando os seus livros de música e aprendendo, sozinha, os rudimentos da teoria musical. Comecei a tocar e ele ficou bastante assustado, porém orgulhoso. Era engraçado, pois não gostava do rumo que as coisas estavam tomando, mas ficava todo bobo quando me via ler partituras – mesmo as mais simples. Desenvolvi uma técnica toda própria para tocar, fazendo os acordes com a mão direita e, com a esquerda, os baixos. Como não sobrava mão para tocar a melodia, comecei a cantar. E sabe que formei um repertório bem razoável?
   
Ainda com uns oito anos, ganhei minha rádio-vitrolinha Belair vermelha. Aí a coisa ficou séria! Ela era portátil e funcionava com pilha também, indo comigo a qualquer lugar! Fiquei impossível. Impossível também de suportar, pois era música o tempo todo: quando chegava da escola, já ia para o banho, ouvindo a rádio Mundial ou Tamoio e, depois do almoço, começava a cantoria. Eu não aguentava só ouvir. Tinha de cantar também! E em um idioma só meu. Meu parceiro predileto era Michael Jackson, pois sua voz infantil parecia com a minha e eu amava suas músicas. Michael era como um irmão mais velho – passávamos todas as tardes juntos, mas ele não implicava comigo.
    
Com doze anos, eu já comprava muitas revistas sobre música e, numa delas, li que um filme dos Beatles, Help, seria exibido novamente. O grupo já havia se separado há alguns anos e, por alguma razão, houve um revival. Marcus e eu fomos ao cinema e ficamos encantados com aqueles quatro rapazes ingleses. A partir daí, descobrimos o rock! Ouvimos e assistimos a tudo que podíamos sobre eles. Um pouco mais tarde, enlouqueci (eu e todas as meninas do mundo) pelo guitarrista-cantor-compositor-gatinho Peter Frampton e decidi aprender a tocar violão como meu ídolo.

     - Pai, quero aprender violão.
     - Não tenho tempo para ensinar, minha filha.
   - Mas a minha amiga tem um professor de violão muito legal. Ele pode me dar aulas.
     - Ok, pode deixar. Eu mesmo vou lhe dar aulas.
    
Desta vez foi diferente: ele não deu nem uma aula sequer! Nenhuma! Comecei, mais uma vez, a pesquisar em seus livros, entretanto não havia absolutamente nada para violão. Passei então a comprar umas revistinhas chamadas Vigu que vinham com várias letras de músicas, os acordes em cima das letras e a tablatura. Só me atrapalhei um pouco na mão direita, mas minha amiga, a do professor legal, me deu umas dicas. Foi uma baita conquista quando toquei minha primeira música no violão que, é claro, era o maior sucesso de Frampton, Baby I Love Your Way. E, novamente, meu pai ficou bastante assustado, porém orgulhoso.
    
Aqui faço um parêntese: ao mesmo tempo em que ele se surpreendia, gostava de me ver tocando e chegávamos a fazer alguns números juntos em casa, ele no piano e eu no violão. Às vezes, trocávamos, mas não ficava tão bacana... Quando ele ia “tirar” uma música para tocar com seu conjunto e tinha alguma dúvida na melodia, me perguntava – afinal, eu ouvia rádio e discos o dia inteiro! Se eu tinha dificuldade em montar algum acorde ou fazer uma divisão, ele me explicava. Quando ele tocava o piano, eu sempre tinha as minhas preferidas e pedia. Meu pai tinha receio de que eu optasse pela música profissionalmente, mas não deixava de ficar feliz por me identificar tanto com ele.
    
No próximo post, a segunda e última parte deste texto, falando do movimento discoteque, dos diversos estilos musicais que coexistiam não tão pacificamente em minha casa, das gravações nos estúdios e da única vez em que cantei com o conjunto de meu pai. 



Peter Frampton, ao vivo, cantando Baby, I Love Your Way (Frampton) - a música que me motivou a aprender violão!

Um Pouco de Mim (2)

A Origem de Tudo (cont)


Com catorze anos, conheci o movimento discoteque através do filme Os Embalos de Sábado à Noite e enlouqueci! Enlouqueci também os vizinhos, porque o vinil rodava sem parar. Nesta época, eu já havia trocado minha rádio-vitrolinha Belair vermelha pela enorme  Motorola com seu estéreo, (muito) alto e bom som. O disco acabava, eu recolocava do começo. Foram tantas reproduções que a agulha pesada daquele vitrolão, tal qual uma broca, danificou os sulcos irremediavelmente e os tornou inaudíveis. Quanto ao filme, assisti umas 1.254 vezes, mas este dado precisa ser atualizado.

Todo tipo de música tocava lá em casa: minha mãe adorava Roberto Carlos, orquestras e as mais antigas; meu irmão era roqueiro; eu amava a música negra da Motown, bossa-nova e MPB, e meu pai curtia tudo. Graças a meu irmão, conheço razoavelmente bem o rock dos anos 70 e 80 – eu e nossos pacientes vizinhos. Sério, eles mereciam uma medalha de honra ao mérito. Por mais incrível que pareça, nunca houve uma reclamação naquele paraíso de decibéis. E, às vezes, havia uma orgia sonora, com os rocks de meu irmão e minhas músicas dançantes se fundindo pelo ar e escapando por todas as janelas do apartamento. Ele na sala e eu no quarto. Perdão, vizinhos...

Em 1978, meu pai voltou a gravar novamente depois de um hiato de oito anos. Fiquei empolgadíssima, afinal não queria perder a oportunidade de acompanhar uma gravação desde o início.

     - Pai, quero ir com você.
    - Você está de férias. Não prefere ir à praia, minha filha? Vai ficar trancada em um estúdio por seis horas?
     - Vou.

E fui. Eu e ele. Foi maravilhoso ver aquele disco nascer. Ele compôs algumas músicas e, claro, dei muito palpite, ajudei a colocar títulos e conheci músicos geniais. Na semana seguinte, eles iriam gravar por duas sessões seguidas a fim de concluir o trabalho.

     - Pai, quero ir também.
    - Ah, não! Você não vai ficar doze horas trancada em um estúdio. É muito para uma menina da sua idade.
     - Vou, sim.

E não fui. Mas sob protesto. No ano seguinte, ele gravou outro disco – que viria a ser o seu último – e começou tudo de novo: seleção de repertório, arranjos, estúdio... Eu observando e ajudando quando podia - só que não estava mais de férias, infelizmente. Mas, no lançamento, eu fui!!! A gravadora, a extinta Copacabana Discos, promoveu uma tarde de autógrafos na também extinta Mesbla (nossa, acho que estou ficando velha...), na rua do Passeio (Lapa, RJ). Cheguei correndo da escola, tomei banho, almoçamos e lá fomos nós dois. Meu pai estava apreensivo, pois há muito não participava de um evento assim. Ele não comentou nada. Apenas percebi. Creio que não tinha a verdadeira dimensão da força de seu trabalho e o que significava para aquelas muitas pessoas que foram prestigiá-lo. Foi um sucesso arrebatador! Quando olhava para o seu rosto, via que estava perplexo e não esperava toda aquela receptividade. E o disco ficou muito bonito, realmente.

Depois que meu irmão e eu crescemos, passamos a acompanhar nossos pais nas noites de reveillón. Em 1981, Waldir Calmon e seu conjunto estavam se apresentando na Churrascaria Roda-Viva, na Urca, RJ. Ao contrário do que o nome sugere, não era uma churrascaria com fumaça de gordura desafiando as nossas narinas, espetos passeando pelo salão, pessoas se empanturrando. Não, nada disto. Era um restaurante especializado em carnes, à la carte, colado à primeira estação do bondinho do Pão-de-Açúcar, pertinho da praia e rodeado de plantas e árvores – uma delas, frondosa, ficava dentro do restaurante. Havia até duas araras lindas, uma azul e outra vermelha, que faziam pose para fotos e, à noite, eram recolhidas para descansar. Algumas paredes não iam até o teto e a brisa do mar circulava livre e alegremente por toda a espaçosa casa. O teto sobre a pista de dança, em noites enluaradas, se abria para as estrelas. As caixas de som se concentravam na pista, tornando possível a conversa entre as pessoas que estavam nas mesas. Um luxo! A música ao vivo revezava com DJ. Do lado de fora, um amplo estacionamento ao ar livre onde podíamos ficar conversando sem medo. Este recanto da Urca era magnífico, um oásis dentro do Rio de Janeiro dos anos 70 e começo dos 80.

Nesta época, a música Festa do Interior (Moraes Moreira) era um dos hits do momento na voz de Gal Costa. Meu pai havia contratado uma nova cantora e pediu para que aprendesse a música, pois iriam tocá-la na noite de reveillón. Eu, muito fã da Gal, tinha a gravação e o ajudei, cantando sempre para guiá-lo enquanto escrevia o arranjo. Havia uma introdução com um belo naipe de sopros, ótima e com muitas notas, que deu um tremendo trabalho. Naquela época, ainda não existiam computadores e os arranjos eram feitos à mão: primeiro, se fazia uma grade (uma espécie de rascunho do arranjo para todos os instrumentos da banda ou orquestra) e, desta grade, se extraía cada partitura de cada instrumento, uma a uma, à mão. Era preciso ter paciência e tempo. E muito capricho para que os músicos pudessem entender o que estava escrito.

No dia 31 de dezembro, chegamos ao Roda (como era chamado pelos seus frequentadores) e esbarrei com a cantora no banheiro:
     - E aí? Já aprendeu a música?
     - Não muito.
Pausa dramática.
     - Como assim? Meu pai teve um trabalhão para escrever! Como vai ser?
     - Na hora, sai.

Não, não iria sair. Fui até meu pai, não para fazer fofoca ou algo do gênero, mas com medo de que a irresponsabilidade de uma pessoa pudesse comprometer o trabalho de todo um grupo.

     - Pai, dá uma passadinha na música com ela.
    - Não precisa, minha filha. Ela disse que está tudo bem e as voltas do arranjo estão iguais às da gravação. Não tem problema, não.
     - Pai, vai por mim, dá uma passadinha.

E eles foram para um anexo da casa que estava desativado. Voltou furioso, falando coisas impublicáveis. A cantora não sabia nem por onde começar. Foi quando perguntei, brincando, na certeza de que ouviria um sonoro não:
     - Você quer que eu cante?
     - Quero.

Coitado. Acho que a raiva foi tão forte que o privou dos sentidos. Ele não deve ter se dado conta do que falou.
     - Quer mesmo?
     - Quero.

 E o baile começou. Quando ele me chamou, subi no palco como um bólido, antes que se arrependesse, peguei o microfone, esperei a introdução e comecei a cantar! Sabia a música de cor, de trás para frente, de frente para trás, em chinês, dinamarquês... Cantei! Sem técnica nenhuma. No tom da Gal. No peito e na raça! Se ficou bom, não sei. Só sei que me diverti pacas. E vi como era diferente cantar em casa e no palco: aqueles retornos de antigamente, barulhentos, uma banda com sopros, percussão, baixo, teclados (meu pai era praticamente uma ilha no meio de tantos teclados)... E também o barulho dos fregueses, da cozinha, dos garçons. Nossa, era muito diferente. Um choque. Estranho mesmo. Mas era muito bom!!! Eu estava deslumbrada, dançando, pulando e cantando, parecendo mais uma baiana em cima de um trio elétrico. E olha que nunca tinha visto uma baiana em cima de um trio elétrico. Depois que desci do palco, uma senhora me abraçou e disse, visivelmente emocionada:
     - Parabéns, minha filha! Gostei de ver! Que personalidade! Foi lá, arrancou o microfone da cantora e cantou! Gostei!

Não foi bem assim, mas era festa e eu, em pleno estado de graça, só queria dançar e saborear aquele momento! Na manhã seguinte, estava acordando e ouvi meus pais conversando na cozinha:
     - Marta, nunca vi ninguém tão cara-de-pau! Eu não esperava que ela subisse mesmo no palco.

Não só subi no palco como gostei. Difícil agora será sair dele.




Três gravações discoteque dos anos 70: as duas primeiras com Waldir Calmon e sua orquestra, e a última com a Banda Idade Média, do maestro Cipó. Danza de los Sabres (Katchaturian) e Macareña (B. B. Monterde - Calero) estão no disco Discotheque (Copacabana, 1979), de Waldir Calmon, e SWAT Theme (Barry De Vorzon) está no compacto simples da RCA, 1977. O belíssimo solo de Macareña é do trompetista Hamilton e o baixo em SWAT Theme é de Tranka Oliveira. Disco Discotheque, de Waldir Calmon (Copacabana, 1979):
  • arranjos: Pachequinho
  • teclados: Waldir Calmon
  • guitarra: Hélio Delmiro
  •  bateria: Picolé
  • trompete: Hamilton

www.waldircalmon.com
www.marciacalmonetranka.com