sexta-feira, 15 de março de 2013

Carmen Miranda

A Pequena Mais Que Notável

Carmen Miranda


Como primeiro post de meu blog, queria um artigo que representasse o meu trabalho como cantora e toda uma vida dedicada à música popular desde a infância. Concluí então de que a síntese disso tudo seria Carmen Miranda. Quem melhor do que ela para representar a cantora popular brasileira? Ela, que praticamente criou o estilo abrasileirado de cantar, com todo o seu swing? Ela, a mãe de todas nós, cantoras? Por coincidência, Carmen faria 102 anos no próximo dia nove de fevereiro e eu não poderia deixar passar essa data em branco. Nunca esqueci o dia em que Carmen nasceu, porque outra figura feminina muito importante para mim, minha avó materna, também fazia aniversário nessa mesma data. Ambas eram inteligentes, versáteis e à frente de seu tempo. E ambas deixaram muita saudade.

Carmen nasceu Maria do Carmo Miranda da Cunha. Seu apelido, Carmen, foi inspirado na ópera homônima de Bizet – que ela adorava. Tal qual a cigana protagonista, Carmen Miranda seduziu com sua irreverência e sensualidade, namorou muito e teve a sua tragédia pessoal, tornando-se dependente de remédios, fisicamente esgotada pelo excesso de trabalho e sofrendo com um marido por vezes, segundo historiadores, violento. Morreu prematuramente aos 46 anos.

A carreira de Carmen nasceu junto com o rádio comercial e foi por ele beneficiada: a partir do início dos anos 30, o rádio começou a se profissionalizar cada vez mais e tornou-se um meio poderoso de divulgação do trabalho de artistas. Mas Carmen não era uma artista de rádio apenas. Ela era palco e tinha uma inteligência extraordinária. Mesmo no começo do século XX, já conseguia entender a importância da linguagem visual para um cantor, desenhando e costurando suas roupas coloridas e, como tinha pouco mais de um metro e meio, criou os famosos sapatos plataforma altíssimos e turbantes enormes, que ela mesmo confeccionava, para deixar-lhe mais vistosa em cena, montando uma personagem em que esses acessórios pudessem se encaixar com harmonia. Aos balangandãs, acrescentou uma dança diferente em que mexia os quadris e os braços. Carmen, sem querer, inventou a popstar com seus figurinos extravagantes, dança e sua incrível presença cênica. Guardando as devidas proporções, seria a Madonna dos anos 30 e 40: cantava, dançava, era irreverente, teve grande projeção internacional e se dedicou ao cinema. Mas a carreira cinematográfica de Carmen foi muito mais interessante e prolífera do que a de Madonna. E, cá entre nós, sou muito mais a Carmen.

Também era determinada e compreendeu que, sozinha, não poderia realizar nos EUA o mesmo tipo de trabalho que fazia em terras brasileiras, exigindo que seu grupo, o Bando da Lua, viajasse com ela. Carmen temia que os músicos americanos não conseguissem tocar com a mesma cadência dos brasileiros. Diante da resistência do contratante norte-americano, conseguiu que o governo de Getúlio Vargas pagasse uma parte das passagens. O restante, ela mesma pagou do próprio bolso.

De certa forma, a personagem criada por Carmen eclipsou a cantora: ela é muito mais lembrada pela exuberância de suas roupas e de sua dança do que por seu inacreditável talento vocal. Seu fraseado era ágil, rítmico, sinuoso e repleto de notas curtas que em muito lembrava as melodias dos chorinhos. O domínio que possuía sobre o a divisão rítmica era espantoso e, até hoje, poucas vezes ouvi uma cantora com essa musicalidade, brasileira ou não. Carmen nasceu em uma família pobre e foi criada na Lapa, centro do Rio de Janeiro, junto com toda a malandragem carioca – a malandragem romântica, bem diferente daquela de hoje em dia, má, violenta... Deve ter visto e ouvido muito e afirmava que havia aprendido a requebrar com as negras dos morros. Também deve tê-los ouvido cantar e tocar à exaustão e, quem sabe?, presenciado algumas rodas de choro. Teria Ademilde Fonseca se inspirado em Carmen Miranda? Bebido naquela fonte? Estive com Ademilde umas duas vezes, mas nunca me senti à vontade para perguntar-lhe. Não por ela ser distante, fria. Muito pelo contrário, é gentil e atenciosa, mas não tive a oportunidade.

Surpreendentemente, Carmen dizia que desafinava. Nunca compreendi a razão pela qual afirmava isso, pois, em nenhum dos muitos registros em que a ouvi cantar, percebi uma nota desafinada sequer. Cantores podem ser levados a desafinar por vários motivos: cansaço físico, má colocação da voz, respiração inadequada, nervosismo (que altera a respiração), quando não se ouvem... Talvez Carmen eventualmente desafinasse uma nota ou outra por dançar demais, ficando sem fôlego e prejudicando a sua respiração. Mas ela era muito talentosa e esta é a diferença entre bons e maus cantores: o bom sente quando, por algum motivo, desafina. O seu apurado ouvido acusa imediatamente.

Dizem que Carmen sempre representava o mesmo tipo de personagem no cinema e nunca teve um bom papel. Bobagem. A maior e melhor personagem interpretada por Maria do Carmo foi Carmen Miranda, com sua alegria, musicalidade, badulaques e trejeitos, em sua interpretação da nossa rica brasilidade. Em meu nome e em nome de todas as cantoras brasileiras, gostaria de dizer "muito obrigada, Carmen." Do fundo de nossos corações musicais!



Carmen interpretando Rebola a Bola, no filme Week-End in Havana, em 1941.