sábado, 16 de março de 2013

E Vamos à Luta!

Das Dificuldades do Mercado Fonográfico

Capa da Revista Amiga n° 623 (28 de abril de 1982

Mexendo em algumas pastas, achei uma crônica de Arthur da Távola sobre Waldir Calmon. O texto foi publicado na já extinta revista Amiga, de 28 de abril de 1982, pouco após a morte de meu pai e, além da homenagem, falava do problema do artista de sucesso que é esquecido. O mais incrível, infelizmente, é que grande parte desse texto permanece atual.

O jornalista começava com “a morte de Waldir Calmon traz à baila o problema do músico que conhece grande sucesso e depois permanece na luta, mas fora dos grandes esquemas comerciais e promocionais.” De fato, meu pai teve um pique de enorme sucesso de quase dez anos e, até sua morte, manteve-se fiel a seu estilo, tocando para dança, mas fora da grande mídia. Ele fazia algumas aparições na TV, porém de forma esporádica, e já não tocava com tanta frequência no rádio. Mesmo assim, continuava tocando todas as noites, em casas noturnas e nos famosos bailes, lutando contra os modismos que surgiam a cada época. Um artista, quando faz sucesso, quer aproveitar a boa fase e assume compromissos nas TVs, rádios, casas de shows, revistas... Acaba sem tempo para dar continuidade a seu próprio trabalho, gravando um novo e bom disco ou produzindo um show mais elaborado. Sem a qualidade que o ócio criativo realmente proporciona, ele dificilmente conseguirá consolidar a sua carreira e, em breve, será substituído por outro que entrará no mesmo esquema, na mesma roda-viva.

Um dos pontos mais polêmicos abordados por Arthur da Távola, em 1982, é a interpretação da preferência do mercado pelas gravadoras. Mais de trinta anos depois, esta prática ainda continua. Como é feita esta avaliação? Como é possível o diretor de uma gravadora, um burocrata da música, avaliar o que é melhor para o público se, muitas vezes, não tem sequer um contato direto com ele? O público não gosta de algumas coisas ou simplesmente não conhece algumas coisas?

As regras do mercado são duras e, com a chegada da internet, ficaram mais agressivas. A revolução tecnológica fez com que todos pudessem ter uma chance. Antes, o artista tinha que conseguir passar pelo crivo de uma gravadora (caso tivesse a sorte de conseguir mostrar o seu trabalho a uma gravadora). Agora, tem que passar pelo crivo dos internautas em meio a centenas de outros artistas que também desejam mostrar o seu trabalho. Se a tecnologia democratizou as chances do artista, também aumentou a concorrência e, em meio a tantos, como se destacar? Além disto, em sua maioria, o público que acessa a internet tem uma faixa etária mais baixa. Que tipo de mídia um artista que desenvolve um trabalho que fuja dos padrões da garotada e saia do eixo rock-pop deveria usar? Algumas pessoas dizem que a MPB está passando por uma grave crise e que a nova geração é pouco talentosa. Não creio. Apenas acho que ainda não foram descobertos no meio desta enxurrada.

Quem não aprecia este tipo de música imposto pelo mercado é obrigado a procurar rádios alternativas e existem algumas até muito segmentadas na internet também. Mesmo assim, é difícil encontrar emissoras de rádio que toquem Nelson Gonçalves, Jamelão, Altemar Dutra ou Dalva de Oliveira, por exemplo. A questão de preservarmos nossa cultura como parte da memória nacional é importante, pois, sem educarmos nossos ouvidos, como criaremos um senso crítico musical? Além disto, trata-se da história de um país, pois muitas músicas, através de suas letras e estruturas melódicas, são verdadeiros relatos de uma época. Bem, enquanto estamos discutindo possíveis soluções, o artista, como escreveu Arthur da Távola há mais de trinta anos, “permanece na luta.” E que luta!



O título deste post foi inspirado na música E Vamos à Luta, do genial compositor Gonzaguinha. No vídeo acima, de 1981, ele canta Fala Brasil e E Vamos à Luta com Roberto Ribeiro no programa Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, exibido pela TV Globo.