quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um Pouco de Mim (6)

Descobrindo Novos Caminhos


Com a minha demo nas mãos, fui à luta! Infelizmente, as gravadoras só queriam lançar alguém que tivesse um repertório inédito. Dificilmente um intérprete, por melhor que fosse, iria conseguir uma chance sem novas canções. Fui a duas grandes gravadoras e ouvi a mesma coisa. Em uma delas, pediram muito para que eu procurasse algum compositor e lhe pedisse material, pois este seria o único empecilho. Porém, os bons compositores queriam gravar suas próprias músicas ou dá-las a artistas consagrados que tivessem uma boa vendagem garantida. E eu era uma ilustre desconhecida...

Mas estava determinada e não desisti. Depois de algum tempo recebendo salário regularmente e vivendo de forma econômica, havia poupado algum dinheiro (é verdade que boa parte dele o Collor pegou) que, junto com meus trabalhos na noite, me permitiam pagar as contas.     

 Um fotógrafo, que conheci quando era modelo e se tornou um grande amigo, apresentou-me o responsável pelo marketing das lojas Ponto Frio. Ele, gentilmente, me deu os endereços das produtoras de jingle com as quais trabalhava e o seu cartão. Com esta apresentação, consegui ser recebida em alguns lugares ao invés de somente deixar meu material e ir embora.

Foi uma verdadeira peregrinação por estúdios até chegar em um famoso, no bairro do Flamengo (RJ), onde estava acontecendo uma gravação naquele exato momento. O proprietário estava na técnica e lá mesmo me recebeu. Além dele, estavam lá as duas cantoras que gravavam, o técnico de som e um homem bem moreno com uma calça jeans surrada e uma t-shirt azul marinho desbotada, fumando sem parar. Ele me olhava fixamente a ponto de me deixar encabulada. Em um determinado momento, me disse:
     - Vai lá e entra no coro!

Fiquei intrigada, pois não sabia quem ele era e por que estava dando as ordens na frente do dono do estúdio. Mas, como sou muito bem mandada, coloquei os fones e cantei. Acabou a gravação e o homem moreno não falou nada. Apenas continuava me olhando e fumando.  Eu ODEIO cigarro! Ele não se apresentou e, através das conversas durante a gravação, soube que era conhecido como “Tranka”. Fiquei me perguntando, então, quem usaria um apelido assim... Meio confusa com aquilo tudo, deixei o material e fui embora.

Dias depois, cheguei em casa e havia um recado em minha secretária eletrônica – em 1992, celular ainda estava chegando ao Brasil e pouquíssimos podiam pagar por esta comodidade. Na mensagem, Tranka me convidava para cantar com seu grupo em um evento para turistas franceses. O cachê era excepcionalmente bom e, claro, irrecusável. Eu, acostumada a tocar somente para brasileiros, aceitei o desafio apesar de saber que o repertório seria bem diferente do que estava habituada a cantar. Ele, porém, já havia tocado em vários países, conhecia muito bem as preferências musicais dos franceses e me orientou. No final, foi um grande sucesso!!! A partir daí, não paramos mais de trabalhar juntos e me sentia duplamente recompensada: através dos gordos cachês que ele pagava aos seus colaboradores e também pelos novos caminhos que eu estava trilhando na música – tudo que eu estava procurando há tempos.

Tranka também era arranjador, diretor musical e criava os espetáculos do Plataforma, que ficava no elegante bairro do Leblon, RJ, e cujo show misturava folclore brasileiro e glamour: paetês, plumas, cores, ritmos e orquestra ao vivo. As fantasias eram enormes, deslumbrantes e tudo muito ensaiado, banda e bailarinos. Tudo era grandioso e, durante as apresentações, havia dezenas de pessoas em cena e outras tantas nos bastidores. No andar térreo, existia a famosa churrascaria onde Tom Jobim passava quase todas as suas tardes e frequentemente conversava com Tranka.  Em 1993, decidiram abrir uma filial em San Juan de Puerto Rico e montaram um elenco brasileiro para morar na ilha caribenha por um ano. Ao todo, cerca de 70 profissionais, (entre músicos, cantores, bailarinos, costureiras, contrarregras, capoeiristas, ritmistas e coordenadores) estavam envolvidos no projeto. Tranka, responsável pela parte musical, me convidou para integrar a banda e confesso ter ficado bastante insegura, pois seria minha primeira viagem internacional a trabalho e longa, muito longa. Mas a oferta era ótima! E lá fomos nós! Com a convivência diária, acabamos nos envolvendo sentimentalmente e, com o fim do contrato em Porto Rico, seguimos para a paradisíaca Saint Martin, também no Caribe. Um amigo dele morava na ilha e lá fomos nós de novo! Só que, desta vez, apenas os dois. E aí começou outro desafio: eu, acostumada a cantar em grandes grupos e em palcos altos e espaçosos, deveria aprender a me apresentar apenas em dupla, domando a voz e dividindo o limitado espaço com o público.

Em Saint Martin, tocamos em hotéis luxuosos e restaurantes sofisticados. Tudo bem suave, junto aos clientes. Os espaços eram menores e não havia condições de realizar grandes shows. Foi difícil me adaptar, muito difícil, mas também descobri outra forma de fazer música e adorei! Estes desafios só enriqueciam minha experiência profissional. Também tive de aprimorar os outros idiomas em que já cantava (inglês, espanhol, francês e italiano), pois turistas do mundo inteiro passavam por lá e não tocávamos somente música brasileira. Nosso imenso repertório ia da bossa-nova ao tango, passando pela valsa francesa, o jazz norte-americano, o cha cha cha latino e a balada italiana - sem esquecer os ritmos caribenhos, como salsa e zouk, e tudo mais que conseguisse se fundir perfeitamente com aquele belíssimo cenário.

Tranka também começou a dar aulas de música e assim seguimos por alguns anos até decidirmos voltar ao Brasil. Saint Martin era um lugar incrível, porém não há perspectivas de novos horizontes em uma pequena ilha. Nós iríamos sempre trabalhar muito, mas fazendo a mesma coisa.
Voltamos e foi difícil nos readaptarmos aqui, pois o Brasil tinha acabado de passar pelo plano Real e parecia outro país. Muito melhor, claro, mas totalmente diferente. Tudo estava mudado – a começar por mim.

Através do Tranka, comecei a fazer backing-vocal para a cantora Marlene (ele era o seu maestro oficial há décadas) e aprendi muito com ela. Grande artista que era, bastava observá-la em cena para adquirir um excelente aprendizado. Comecei também a fazer coros em discos, participar da criação de shows, produzir grande trabalhos, gravei um CD solo... Enfim, consegui trilhar novos e diferentes caminhos na música como eu desejava há anos! Ah, e ainda estudei demais: fiz cursos de canto lírico e popular, em Saint Martin e no Rio.

Espero ter conseguido mostrar a vocês pelo menos um pouco de minha trajetória musical desde a infância. A música, para mim, nunca foi uma opção de vida. A música, para mim, sempre foi a própria vida.



Faixa de nosso CD Tranka & Marcia - Sob Medida: Samba do Avião (Jobim) - Corcovado (Jobim) - Copacabana (Braguinha e Ribeiro)