quarta-feira, 25 de abril de 2018

Um Pouco de Mim (1)

A Origem de Tudo



Postarei os seis primeiros textos que escrevi para a minha coluna no Jornal Banda da Banda, de Amparo, SP. A intenção era me apresentar para os(as) leitores(as) e fazê-los(ls) entender a importância da música em minha formação como cantora e ser humano. Espero que gostem! Um abraço!

Muito prazer! Meu nome é Marcia. Sou cantora, compositora, formada em Jornalismo e filha do pianista Waldir Calmon e da também cantora Marta Calmon que, solteira, usava o nome artístico de Marta Kelly. Minha mãe deixou de cantar quando engravidou e só voltou dezenove anos depois.
    
Para quem não conheceu o trabalho de meu pai, aqui um brevíssimo resumo: nos anos 50, Waldir Calmon foi talvez o artista que mais vendeu discos no Brasil e possuía um estilo inconfundível de tocar o piano, em oitavas. Seu repertório era composto, em sua maioria, por músicas dançantes e ele amava fazer os casais rodopiarem pelo salão. Quanto mais gente se levantava para dançar, mais feliz ele ficava. Seu conjunto (ou, mais raramente, orquestra) tocou em bailes pelo Brasil inteiro e revelou grandes músicos, como Milton Banana, Paulo Nunes, Rubens Ohana, Fernando Barreto e Humberto Garin, entre outros. Em sua vasta discografia, destaca-se a série Feito Para Dançar, com 12 volumes, cujos discos possuíam um lado de músicas corridas, sem intervalos, ideal para as festinhas em casas de família. Ele também teve um programa de TV durante dez anos, Ritmos S. Simon, e participou de filmes nacionais. E, para vocês entenderem os caminhos que me levaram à música, vou escrever um pouco sobre nossa família.

Morávamos no Rio de Janeiro, em uma rua de Copacabana bem tranquila (por mais incrível que isto possa parecer). Nossa rua, a Cinco de Julho, era agradável, arborizada e sempre encontrávamos alguns amigos de meus pais. Havia um que me chamava a atenção por causa de seu cachorrinho peludo (se não me falha a memória, um poodle branco). Quase todas as tardes, os encontrávamos. Meu pai e aquele senhor conversavam durante horas e eu adorava, pois ficava brincando com o bichinho. Hoje em dia, sei que o dono daquele belo cãozinho era Carlos Machado, o Rei da Noite, produtor de suntuosos espetáculos e revistas musicais. Mas ali estava somente um homem vestido com roupas simples, desfrutando da companhia de seu animalzinho de estimação.
    
Desde cedo, meu irmão, Marcus, e eu respiramos música! Havia instrumentos, caixas de som e todo tipo de equipamento pelo apartamento, enlouquecendo minha mãe que, em uma luta inglória, tentava escondê-los a todo custo. Certa vez, um daqueles antigos microfones de estúdio, que pesava cerca de uma tonelada, caiu em cima de meu pé e, sem exagero, quase quebrei alguns dedos. O microfone saiu ileso.
     
Já bem pequena, aprendi a dividir o espaço com o imenso piano preto – quando somos crianças, tudo parece maior – de meia cauda que fazia de cabana em minhas brincadeiras. Tínhamos uma vitrola Motorola, também imensa, daquelas que tocavam vários discos em sequência e rodava até 78 rotações. Quando a música tocava, eu dançava e em qualquer lugar: na nossa sala, na sala dos outros, na rua, na boate de meu pai...
    
A boate Arpège ficava na rua Gustavo Sampaio, no Leme (RJ), e meu irmão e eu, ainda crianças, só passávamos lá durante o dia. O Leme era famoso por suas sofisticadas casas noturnas que, junto com a Arpège, fervilhavam na elegante noite carioca: Drinks, Sacha’s, Fred’s, Plaza... onde talentosos músicos e cantores, como também personalidades brasileiras e estrangeiras circulavam, ostentando seus vestidos, ternos, joias e carrões. Meu pai compôs e gravou até uma música chamada Samba no Arpège (Waldir Calmon – Luís Bandeira) e lançou uma série de vinis, com três volumes, intitulada Uma Noite no Arpège. O majestoso piano Steinway, que reluzia absoluto em nossa sala, tinha sido da boate até ser trocado por um modernoso órgão elétrico Hammond: a princípio, um B2, mas meu pai não resistia a uma tecnologia e logo o trocou por um modelo mais atual, o B3.  Para dizer a verdade, com todas aquelas teclas, pedais, botões, alavancas e luzes, o instrumento mais me assustava do que convidava. Eu tinha sempre a impressão de que seria abduzida por ele a qualquer momento.
    
Voltando ao lar, lembro ainda de minha mãe gravando algumas músicas de Festivais da Canção com um gravador de rolo pesadíssimo - ela colocava o microfone em frente ao autofalante da TV e captava um som ruim, mas o suficiente para meu pai escutar e avaliar se valia a pena ou não colocar a canção em seu repertório dançante.
    
Fui crescendo e, aos poucos, o piano deixou de ser uma cabana de brinquedo para se tornar uma grande paixão. Aos oito anos, decidi que iria aprender a tocar. Porém, isto não estava nos planos de meu pai que desejava me ver formada em Medicina. Ele achava que eu era musical demais e deveria me proteger de uma carreira tão difícil como a música. Mas como explicar isto a uma criança tão determinada? Ele não explicou. Ele me enrolou:
     - Pai, quero aprender piano!
     - Não tenho tempo para ensinar, minha filha.
    - Mas a minha amiguinha tem uma professora de piano muito legal. Ela pode me dar aulas.
     - Ok, pode deixar. Eu mesmo vou lhe dar aulas.

E deu. UMA aula! UMA única aula! Comprei caderno de música, lápis fofo, borracha bonitinha... e tive UMA aula. Todas as vezes que eu reclamava, meu pai dava uma desculpa. Acabei pegando os seus livros de música e aprendendo, sozinha, os rudimentos da teoria musical. Comecei a tocar e ele ficou bastante assustado, porém orgulhoso. Era engraçado, pois não gostava do rumo que as coisas estavam tomando, mas ficava todo bobo quando me via ler partituras – mesmo as mais simples. Desenvolvi uma técnica toda própria para tocar, fazendo os acordes com a mão direita e, com a esquerda, os baixos. Como não sobrava mão para tocar a melodia, comecei a cantar. E sabe que formei um repertório bem razoável?
   
Ainda com uns oito anos, ganhei minha rádio-vitrolinha Belair vermelha. Aí a coisa ficou séria! Ela era portátil e funcionava com pilha também, indo comigo a qualquer lugar! Fiquei impossível. Impossível também de suportar, pois era música o tempo todo: quando chegava da escola, já ia para o banho, ouvindo a rádio Mundial ou Tamoio e, depois do almoço, começava a cantoria. Eu não aguentava só ouvir. Tinha de cantar também! E em um idioma só meu. Meu parceiro predileto era Michael Jackson, pois sua voz infantil parecia com a minha e eu amava suas músicas. Michael era como um irmão mais velho – passávamos todas as tardes juntos, mas ele não implicava comigo.
    
Com doze anos, eu já comprava muitas revistas sobre música e, numa delas, li que um filme dos Beatles, Help, seria exibido novamente. O grupo já havia se separado há alguns anos e, por alguma razão, houve um revival. Marcus e eu fomos ao cinema e ficamos encantados com aqueles quatro rapazes ingleses. A partir daí, descobrimos o rock! Ouvimos e assistimos a tudo que podíamos sobre eles. Um pouco mais tarde, enlouqueci (eu e todas as meninas do mundo) pelo guitarrista-cantor-compositor-gatinho Peter Frampton e decidi aprender a tocar violão como meu ídolo.

     - Pai, quero aprender violão.
     - Não tenho tempo para ensinar, minha filha.
   - Mas a minha amiga tem um professor de violão muito legal. Ele pode me dar aulas.
     - Ok, pode deixar. Eu mesmo vou lhe dar aulas.
    
Desta vez foi diferente: ele não deu nem uma aula sequer! Nenhuma! Comecei, mais uma vez, a pesquisar em seus livros, entretanto não havia absolutamente nada para violão. Passei então a comprar umas revistinhas chamadas Vigu que vinham com várias letras de músicas, os acordes em cima das letras e a tablatura. Só me atrapalhei um pouco na mão direita, mas minha amiga, a do professor legal, me deu umas dicas. Foi uma baita conquista quando toquei minha primeira música no violão que, é claro, era o maior sucesso de Frampton, Baby I Love Your Way. E, novamente, meu pai ficou bastante assustado, porém orgulhoso.
    
Aqui faço um parêntese: ao mesmo tempo em que ele se surpreendia, gostava de me ver tocando e chegávamos a fazer alguns números juntos em casa, ele no piano e eu no violão. Às vezes, trocávamos, mas não ficava tão bacana... Quando ele ia “tirar” uma música para tocar com seu conjunto e tinha alguma dúvida na melodia, me perguntava – afinal, eu ouvia rádio e discos o dia inteiro! Se eu tinha dificuldade em montar algum acorde ou fazer uma divisão, ele me explicava. Quando ele tocava o piano, eu sempre tinha as minhas preferidas e pedia. Meu pai tinha receio de que eu optasse pela música profissionalmente, mas não deixava de ficar feliz por me identificar tanto com ele.
    
No próximo post, a segunda e última parte deste texto, falando do movimento discoteque, dos diversos estilos musicais que coexistiam não tão pacificamente em minha casa, das gravações nos estúdios e da única vez em que cantei com o conjunto de meu pai. 



Peter Frampton, ao vivo, cantando Baby, I Love Your Way (Frampton) - a música que me motivou a aprender violão!