sexta-feira, 29 de abril de 2016

Show "Delicado"

Marcia Calmon & Tranka em show intimista


Devido ao sucesso, voltaremos ao Panorama Piano Bar para apresentar nosso show Delicado! Somos apenas Tranka Oliveira (teclado e violão) e eu no palco, interpretando canções que, de uma forma ou de outra, tiveram um significado especial em nossas vidas. Além da música que dá nome ao show, de Waldir Azevedo e Ary Vieira, teremos Odeon (Ernesto Nazareth e Vinícius de Moraes), Papel Marchê (João Bosco e Capinam), Pelo Telefone (Donga), Ela é Carioca (Tom Jobim e Vinícius de Moraes), Serrado (Djavan), Ave-Maria no Morro (Herivelto Martins), Qui Nem Jiló (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga), Babalu (Margarita Lecuona) e muito mais! 

Delicado será apresentado no próximo dia 12 de novembro no Panorama Piano Bar (Leblon, RJ) que faz jus ao nome com uma belíssima vista da praia e do Cristo Redentor. A casa serve petiscos, mas também tem restaurante, com um elogiado menu, para quem prefere jantar. O Panorama aceita pagamento em dinheiro, cartões de débito e cheques. Será uma grande alegria receber todos vocês lá! E peço imensas desculpas por não ter tido tempo para fazer novos posts no blog. Em breve, voltarei com mais assuntos ligados à música. Um grande abraço!

Data: 12 de novembro, sábado
Horário: 21:30hs (as reservas são válidas até 21:00hs). O show começará rigorosamente no horário
Endereço: Panorama Piano Bar (cobertura do hotel Mercure na rua João Lyra, 95/19° andar, Leblon, RJ)
Couvert: R$ 30,00 por pessoa
Reservas: trankaemarcia@gmail.com
Classificação etária: livre
Pagamento: O Panorama Piano Bar NÃO aceita cartões de crédito. A casa só trabalha com cartões de débito, dinheiro e cheque
Estacionamento: o hotel Mercure tem estacionamento, mas não sei informar as tarifas.


Babalu, de Margarita Lecuona, é um motivo afro-cubano cujo primeiro registro consta de 1939 e foi gravado por nomes como Desi Arnaz, Yma Sumac, Celia Cruz e Dalva de Oliveira (em versão para o português). A letra fala de um ritual de santeria oferecido ao orixá Babalu (ou Xangô, segundo alguns tradutores) e é escrita em um espanhol misturado com o creole dos negros cubanos. No Brasil, a gravação de Ângela Maria e do pianista Waldir Calmon foi um estrondoso sucesso - talvez o maior da carreira de Ângela. Este registro é uma homenagem a meu pai, Waldir, e à belíssima voz de Ângela Maria.
Tranka Oliveira: arranjo e teclados
Marcia Calmon: arranjo, voz e edição de vídeo





Estes dois vídeos foram gravados de smartphone durante o show Delicado, em julho de 2016. No primeiro, Tranka (violão) e eu estamos interpretando Mas Que Nada (Benjor) - Serrado (Djavan) - Flor de Lis (Djavan); no segundo, Tranka já está no teclado e tocamos Ela é Carioca (Jobim - Vinícius)

sábado, 14 de novembro de 2015

As Tragédias de Mariana e Paris

Assim Caminha a Humanidade


Este é um blog sobre música e músicos, mas não consegui ficar indiferente aos últimos acontecimentos no Brasil e na França. Além da perplexidade pela gravidade dos fatos, também me surpreendi com os comentários de alguns, dizendo que nada foi divulgado sobre Mariana e que não devíamos nos importar tanto com um problema em outro país se temos outro tão grave aqui. E, quase como um desabafo, escrevi.

Algumas pessoas têm comparando as tragédias de Minas Gerais e de Paris: uns falam da cobertura da mídia, e outros, da mobilização das pessoas. Desde que houve o rompimento da barragem, em MG, li e assisti a uma ampla cobertura da imprensa sobre o assunto. Já ouvi a opinião de vários especialistas, prognósticos, estatísticas... E amplamente divulgado na mídia escrita e falada. Só não vi o posicionamento das autoridades competentes e a nossa presidente se preocupou em avaliar a situação apenas uma semana depois. Os políticos, estes sim, encastelados no poder e lutando para não perdê-lo. Parece que isto é o mais importante no meio do caos que se instalou na região de Mariana.

Comparar as duas tragédias e exigir que optemos por uma ou por outra é colocar o ser humano no pior degrau de evolução, pois não somos somente sim ou não, certo ou errado, isto ou aquilo. Temos vários matizes, várias opiniões e vários sentimentos. Somos capazes, sim, de sofrer por uma tragédia como a de Minas e por uma carnificina como a de Paris. É natural que a mídia mundial dê mais destaque ao ato terrorista, pois ocorreu em um país que sempre foi um exemplo internacional de igualdade e liberdade de expressão. Além do mais, o Estado Islâmico (EI) está ameaçando o planeta inteiro e ataques como os de ontem podem acontecer em qualquer lugar. É um sinal de alerta máximo. As forças armadas francesas, norte-americanas e russas estão na Síria, tentando combater o EI e, na minha opinião, isto já configura uma guerra.

Por favor, não vamos competir para ver quem está sofrendo mais ou qual é a maior tragédia. Vamos aproveitar para comparar a resposta das autoridades diante das duas catástrofes e exigir de nossos políticos ações rápidas e eficientes sempre. Não gastemos nossas forças em bobagens. Vamos nos concentrar no que é realmente importante, sem discussões inúteis entre nós mesmos. A hora é de união e de cobrança a quem tem a responsabilidade de zelar pelo nosso patrimônio - seja ele histórico, moral, financeiro. No meu coração, há espaço para vários sentimentos, vários quereres e estou igualmente triste por todos os acontecimentos e pelos rumos que o mundo está tomando. E, caso alguém ainda não tenha visto na mídia, ontem também aconteceu um terremoto de sete graus na costa sudoeste do Japão (com alerta de tsunamis). Ainda não se tem notícias sobre os danos. Também me solidarizo com o povo japonês e com todos que estão sofrendo neste mundo horroroso que estamos deixando para as gerações mais novas.


Creio que este vídeo é apropriado para a ocasião, pois o inesquecível Louis Armstrong canta a belíssima What a Wonderful World (Bob Thiele - George David Weiss) depois de algumas frases em que fala, entre outras coisas, de poluição.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Vídeo dos Anos 80

Marcia Calmon e Outras Cantoras da Noite Carioca


Este vídeo mostra duas participações minhas em programas na extinta TVE (Rio de Janeiro). Eles foram gravados em fita VHS que, com o passar dos anos, ficou em péssimo estado. Só consegui salvar alguns pedaços que foram convertidos para P&B por causa da péssima definição de cor.

O primeiro programa foi em outubro de 1985, cujo nome não me lembro, e fizeram uma pequena matéria sobre o meu trabalho e minha vida pessoal. Na parte filmada na Gafieira Estudantina, minha mãe e eu cantamos Sonho Meu (Ivone Lara - Délcio Carvalho) com a Orquestra Waldir Calmon que, depois da morte de meu pai, passou a ser administrada pela viúva e pelos dois filhos. O outro cantor da banda, Anderson, fez uma participação no refrão. No começo, canto Madalena (Ivan Lins - Ronaldo de Souza) e a voz masculina em off, narrando, é de Oswaldo Sargentelli.

O segundo foi um programa de entrevistas chamado 1986 e gravado em janeiro do mesmo ano. Eu já havia participado do mesmo programa no ano anterior, quando se chamava 1985 - há inclusive um vídeo em meu canal no YouTube. O 1986 era apresentado por Ziraldo e Elizabeth Camarão e, neste dia, o tema foi O Breve Brilho da Noite - somente com cantoras da noite do Rio de Janeiro. As convidadas foram: Áurea Martins, Celeste Lassaval, Rose Valentim, Fátima Regina e eu. As músicas cantadas neste programa foram: Pela Rua (Dolores Duran - Ribamar), Rio Antigo (Chico Anísio - Nonato Buzar), Demais (Tom Jobim - Aloísio de Oliveira), Dindi (Tom Jobim - Aloísio de Oliveira), Meiga Presença (Paulo Valdez - Octávio de Moraes), Volta (Lupicínio Rodrigues) e É Com Esse Que Eu Vou (Pedro Caetano). Ao piano, Anselmo Mazzoni. Espero que gostem!



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Minha Voz, Minha Vida

Como Manter a Voz Sempre em Bom Estado?




Muitos cantores, profissionais em início de carreira ou amadores, me perguntam qual a melhor forma de manter a voz sempre em boas condições. Ficam confusos talvez pela enxurrada de dicas que encontram por aí: conhaque, própolis, gengibre, maçã... Canto profissionalmente desde 1985 e já fiz quase tudo que me indicaram. Quando comecei, alguém me disse que comer cebola crua “abria a voz”. Pois bem, eu comi. E comi muitas. Foram dúzias de saladas de cebolas cruas antes dos bailes. O máximo que consegui foi afastar a banda inteira cada vez que me virava para pedir tom. Por melhor que seja a nossa higiene bucal, o cheiro da cebola crua não sai. Talvez só com gargarejos de soda cáustica...

Sempre li muito a respeito para tentar tirar o melhor proveito de meu aparelho fonador. Acho que isto e minha experiência podem ajudar um pouco. Primeiro, vamos entender rapidamente como funciona a formação da voz: ela é produzida através de um som básico gerado pelo ar que sai dos pulmões e passa pelas pregas vocais que são localizadas na laringe (espécie de tubo alongado que fica no pescoço). Antigamente, as pregas vocais eram chamadas de cordas vocais, mas elas não são cordas! São duas dobras, formadas por músculo e mucosa, paralelas ao solo. Quando emitimos um som, elas vibram, muito ou pouco, dependendo do timbre: quanto mais agudo, mais elas terão de vibrar. O som produzido na laringe ainda não é a voz que ouvimos. Antes, ele passará por várias estruturas em nosso corpo para amplificá-lo até sair pela boca. Estas estruturas são chamadas de caixas ou cavidades de ressonância e estão presentes no tórax, pescoço e cabeça.

Pelo breve exposto, podemos deduzir que o ato de cantar depende de uma boa condição física, já que grande parte de nosso corpo está comprometido com a formação da voz e que, principalmente, nosso instrumento de trabalho não pode ser comprado ou trocado, como uma guitarra ou um teclado. Portanto, a minha resposta, quando me perguntam se tenho algum truque para manter a voz em bom estado, é “tenha uma vida saudável!” Faça exercícios aeróbicos, para desenvolver sua capacidade pulmonar, e de resistência para não criar tensões em áreas do ombro e pescoço devido ao atrofiamento da musculatura. Pelo mesmo motivo, faça exercícios vocais regularmente, pois a emissão da voz envolve vários músculos específicos e músculos trabalhados sempre respondem melhor.

Não fume, pois o muco que o cigarro produz envolve as pregas vocais, dificultando sua vibração – daí o timbre mais grave dos fumantes. O muco também pode obstruir algumas caixas de ressonância de seu corpo (lembre-se que elas amplificam o som), tornando o timbre “opaco”. Gripes e resfriados são inimigos de quem canta e, por esta razão, tomo anualmente a vacina. Nada pior do que uma constipação nasal para entupir várias de nossas cavidades de ressonância...

Beba sempre muita água (em temperatura ambiente) para manter a saúde de suas vias respiratórias e a hidratação das mucosas. A hidratação se faz de forma direta, umedecendo as mucosas, e indireta, quando a água é absorvida pelo estômago e volta para o organismo – mas este processo é mais lento. Esqueça as bebidas alcoólicas, pois elas dão uma falsa sensação de aquecimento na garganta e ainda ressecam nossas mucosas. Algumas pessoas acham que, quando estão com dor de garganta, o álcool ajuda. Não, o álcool nunca ajuda. Ele apenas “anestesia” e o cantor acha que melhorou, começa a cantar, a forçar e, no dia seguinte, está bem pior.

Como a performance vocal depende de nosso estado físico, alimente-se adequadamente e durma bem, muito bem. O descanso é importantíssimo para um bom desempenho. Depois que cantamos, nossa garganta está super aquecida. Portanto, evite correntes de ar e afins. E ela não fica aquecida apenas quando cantamos. Basta falarmos. E quanto a falar, procure não falar alto.

Em resumo: não adianta nada lembrar-se de sua voz apenas na hora do show. Nenhum truque mágico fará um corpo debilitado ou uma garganta mal tratada produzir uma boa voz. A maçã está na moda entre os cantores, mas ela não faz milagres: é uma ótima fruta detox, limpando o organismo, mas pouco adiantará se você estiver com muito muco. Além, é claro, de dar uma fome danada e cantar com fome é complicado...

A única coisa que realmente ajuda antes de uma apresentação é o aquecimento vocal. Sim, aqueles exercícios que os professores nos ensinam. Eles são fundamentais! E, durante a função, beba água não gelada – principalmente se o clima estiver seco ou o ambiente tiver ar-condicionado. O resto é pajelança.

Se, depois de tudo isto, você ainda quiser ser um cantor profissional, parabéns! Bem-vindo ao clube! E lembre-se: se você tratar a sua voz com carinho, ela poderá lhe trazer belas alegrias.


Esta música se chama Minha Voz, Minha Vida (Caetano Veloso) e foi gravada por Gal Costa, em 1982, no vinil Minha Voz. Este vídeo é de uma apresentação em 2013 e quem está no violão é Pedro Baby - filho de Baby do Brasil (ex-Consuelo) e Pepeu Gomes.

domingo, 7 de abril de 2013

Parabéns, Tranka!

Aniversário de um dos Mais Geniais Músicos que Conheço


Abril é o mês de aniversário de uma das pessoas mais talentosas que a nossa música já conheceu. Quero fazer uma justa homenagem a este que só nós, músicos e cantores, conhecemos.

Tranka nasceu Tancredo e, ao contrário do que muitos pensam, o seu apelido não tem nenhuma relação com o nome de batismo. Ainda criança, sofreu um sério acidente em uma porteira e, a partir daí, quando lhe perguntavam o motivo de todos aqueles machucados, ele respondia “a tranca”! Muitos tempo depois, a cantora Marlene, com quem trabalhou por mais de trinta anos, sugeriu que trocasse o c pelo k para ficar, digamos, mais artístico...

Tranka nasceu em Valença, interior do estado do Rio de Janeiro, e aprendeu música com seu tio, maestro da banda da cidade, e seu primeiro instrumento foi a requinta. Aos dezenove anos, veio para a capital tentar a vida como músico. Mesmo com todas as dificuldades que uma cidade grande oferece a um rapaz do interior, conseguiu fazer ótimos contatos graças ao seu imenso talento e acabou ganhando o mundo: em 1976, fez uma turnê com o cantor caribenho-norte-americano Harry Belafonte e morou em vários países – sempre tocando e/ou ensinando música.

Em 1978, o sucesso da novela Pai Herói (TV Globo) trouxe de volta um estilo de casa noturna que há tempos estava decadente: as gafieiras. Na estória, a personagem de Glória Menezes era a feliz proprietária da gafieira Flor-de-Lis e a repercussão do folhetim foi tão grande que a Flor-de-Lis saiu da ficção e foi para o bairro de São Conrado, no Rio, sob a batuta do competentíssimo maestro Cipó. Muitas outras surgiram pelo Rio de Janeiro e um grupo de empresários, aproveitando o boom, decidiu abrir uma outra gafieira na cidade, no Leblon, bairro nobre da zona sul carioca. Tranka foi chamado para conhecer o espaço e avaliar a possibilidade de montar a nova casa dançante, com orquestra e tudo mais. Mas ele sugeriu outra coisa: ao invés de um lugar que, com o fim da novela, estaria fadado ao esquecimento, por que não fazer uma casa de espetáculos folclóricos brasileiros com muito luxo e estrutura grandiosa? E assim nasceu o Plataforma. Sim, aquele Plataforma que também tinha uma churrascaria, na parte de baixo, onde o inesquecível maestro Tom Jobim passava a maioria de suas tardes e onde Tranka o conheceu, tornando-se amigos. A concepção da casa de espetáculos foi do Tranka, com aquela imensa passarela, e todos os shows tiveram a sua assinatura. A gafieira Flor-de-Lis acabou praticamente junto com a novela e o Plataforma permaneceu por décadas no mesmo lugar...

Tranka havia conhecido um dos futuros donos do Plataforma, Alberico Campana, na noite carioca. Aliás, na noite conheceu muita gente boa: Alcione, Emílio Santiago, Djavan, Ivan Lins, Luizinho Eça, Luiz Carlos Vinhas, dentre tantos. Quase todos ainda desconhecidos, em começo de carreira. Ele morava em um famoso apartamento, no Posto Seis de Copacabana, que ficava com as portas abertas o tempo todo. Segundo o próprio, era uma “verdadeira bagunça”, mas recebia quem precisasse de um lugar para dormir. Passaram por lá Celinho Trompete, Wagner Tiso, Milton Nascimento, o guitarrista Írio de Paula e outros mais.

Nesta época, também conheceu Marlene (a maior!): ela estava procurando um grupo novo para acompanhá-la no show Te Pego Pela Palavra quando conheceu o Relax na boate Number One, em Ipanema: Eduardo Prates (piano), Toninho Costa (guitarra), Tranka (baixo), Chiquinho Brasão (bateria) e Suely, Zaida e Octávio César (vocais). Marlene ficou encantada com os modernos arranjos e contratou-os. Bem, o fim desta história todos conhecem - o show, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho, foi um enorme sucesso e é considerado um dos melhores de todos os tempos. E Tranka acabou se tornando o maestro oficial de Marlene.

Aqui, faço um aparte. Tranka começou tocando requinta, passou pelo clarinete e foi ao sax e à flauta. Daí, partiu para o baixo (que tocava quando conheceu Marlene) e, não satisfeito, foi para o violão, o teclado e para o piano (sim, há uma pequena diferença chamada “mão esquerda” que requer muito mais estudo na transição dos teclados arranjadores para o piano acústico). Com Harry Belafonte tocou guitarra; com Gonzaguinha, baixo; com Emílio Santiago, sax e flauta... E os baixistas mais consagrados dizem que poucos dominaram este instrumento como Tranka. Acredito, pois nunca conheci ninguém tão versátil e com tamanha musicalidade. As harmonias que cria são de um bom gosto extremo e poucas vezes vi alguém com tamanha capacidade para criá-las. E, quem é do ramo, sabe que harmonia musical é um assunto espinhoso... Os arranjos que escreve também são lindos e é impressionante a sua rapidez. Como se não bastasse, é capaz de reconhecer acordes sem o apoio de nenhum instrumento, só pelo ouvido. Quando presenciei isto, na primeira vez, pensei que estivesse brincando conosco. Estávamos com alguns jovens franceses na ilha de Saint Martin (Caribe), onde moramos, e ele ouviu uma música e começou a escrever sua harmonia na hora, apenas com o auxílio de uma caneta e um papel. Todos nos entreolhamos, surpresos. Parecia que estávamos assistindo a um show de David Copperfield. Agora já me acostumei.

Porém, nada disto parece suficiente e Tranka ainda compõe. Pois é. Foi gravado pela primeira vez, em 1978, pela cantora Celeste em seu disco Cinco e Triste da Manhã: Ronda Tristeza (Tranka) e Sinal de Solidão (Tranka - Jenny). Mais tarde, fez uma parceria bem sucedida com Toninho Nascimento e Noca da Portela, compondo sucessos como Celular, Ilumina e Muambeiro, entre outras.

Mas não poderia acabar este post sem contar uma história muito curiosa, envolvendo meu pai, o pianista Waldir Calmon, e Tranka - um grande talento, mas desligado de tudo. Sua cabeça vive em outra dimensão e é difícil fazê-lo prestar atenção aos assuntos corriqueiros. Já meu pai era um homem extremamente rígido no que dizia respeito ao trabalho.

Pouco tempo depois de chegar à capital, meu pai o convidou para tocar sax em um baile na Tijuca, na rua Barão de Ubá. Tranka não entendeu direito, mas tem (até hoje) o péssimo hábito de não perguntar nada a ninguém e tentar resolver tudo sozinho. Como não conhecia bem a cidade, confundiu Barão de Ubá com Bangu e seguiu rumo à zona norte. Para quem não conhece, os bairros Tijuca e Bangu são muito, mas muito distantes um do outro. Para piorar, chovia. Chovia como se o mundo fosse acabar e Tranka pegou o ônibus, com seu instrumento, para Bangu. Quando chegou em Bangu, viu o erro e, lembrando-se do nome correto da rua, finalmente pediu uma informação. Pegou outro ônibus, debaixo do temporal, e seguiu para a Tijuca. Depois deste nada agradável passeio turístico pelo Rio, conseguiu chegar ao clube, encharcado e já na metade do baile. Pensou que poderia chegar discretamente, montar o seu instrumento e “atacar” como se nada houvesse acontecido. Mas, na hora de montar o sax, percebeu que havia esquecido a boquilha e falou a um músico - discretamente e na esperança de não chamar a atenção de Waldir Calmon - que iria buscar em casa, rapidinho, a peça que faltava. Concluindo a história: meu pai, na mesma hora, mandou pagar-lhe o cachê com a condição de que fosse embora naquele momento e nunca mais voltasse. E assim aconteceu. Depois, tornaram-se amigos e ficavam conversando pelas madrugadas naqueles infindáveis papos de músicos quando saíam de seus trabalhos e acabavam todos se encontrando. Chegaram a trabalhar juntos uma única vez, no extinto Canecão (Botafogo, RJ), onde Waldir Calmon tocava todas as noites, antes e depois dos shows. Tranka, que nesta época já havia trocado o sax pelo baixo, substituiu um dos músicos da banda e, segundo ele, foi um sucesso.

Tranka, espero que faça muitos outros aniversários, pois a música precisa de pessoas transbordantes de talento como você! Parabéns pela pessoa e pelo músico que você é!

Abaixo, um vídeo com a dupla Marcia Calmon & Tranka, interpretando Pedacinhos do Céu, de Waldir Azevedo. Há mais vídeos nossos no YouTube: Canal de Marcia Calmon no YouTube


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Emílio Santiago

Alguém Como Tu

Emílio Santiago

O jornalista Xexéo definiu, com muita propriedade, a morte de Emílio Santiago. Em seu texto, disse que “a música brasileira ficou menos elegante.” E ficou mesmo. Emílio era gentil no trato pessoal, um profissional sério e o melhor intérprete de sua geração. Tornou-se uma referência para os cantores da noite e ter a “voz parecida com a do Emílio Santiago” era um elogio. Todos forçavam os graves para timbrar como os dele, claros e afinados. Sua voz potente e aveludada tinha o destaque de seu perfeito groove (também conhecido como suingue, balanço, divisão, ritmo...), interpretação sem exageros e boa extensão. Ele possuía todas as ferramentas para tornar-se um grande intérprete. E tornou-se.

Meu marido, Tranka, e o então crooner Emílio trabalharam juntos na extinta boate 706, no Leblon (Rio de Janeiro), no início da década de 70. Nos anos 80, já consagrado, Emílio o convidou para tocar sax e flauta em uma temporada de shows. O tempo de convivência fez nascer um carinho mútuo que sempre se manifestava quando se encontravam. Um carinho extensivo a todos que compartilhavam o palco com ele. Creio que todos os músicos devem estar sentindo profundamente a perda de um artista tão cordial, amigo e correto. Um ser humano elegante.
Ouça: Emílio Santiago - Alguém Como Tu




Trecho histórico (primeira parte) do programa Flávio Cavalcanti, exibido pela TV Rio, em 1973, nas noites de domingo. O vídeo mostra um quadro do programa que se chamava Isso Deu Samba? no qual se apresentavam dois compositores que recebiam o desafio de compor, em poucos minutos, um samba sobre um tema que lhes era apresentado na hora. Aqui temos a participação de dois monstros da música brasileira: Adelino Moreira e Lupcínio Rodrigues. Nesta gravação histórica, Emílio Santiago ainda não era famoso e aparece interpretando o samba de Lupcínio.

domingo, 17 de março de 2013

A Era das Big Bands - Parte I


Neste post, falarei das big bands e, para melhor compreensão, decidi dividi-lo em três partes: a origem nos EUA, o sucesso e a decadência no Brasil.

A Origem nos EUA

Glenn Miller e sua big band

As big bands foram grandes bandas jazzísticas do séc XX que surgiram com a Era do Swing do jazz (anos 20 até o fim da Segunda Grande Guerra). Nasceram nos EUA e, a partir de meados dos anos 40, chegaram ao Brasil. Estas bandas costumavam ter cerca de vinte músicos ou mais: além da cozinha (piano, guitarra, baixo¹ e bateria), também tinham naipes de palhetas (saxofones altos, tenores e barítonos e, eventualmente, clarinete) e metais (trompetes e trombones) e todos eram conduzidos por um bandleader – que, na maioria das vezes, também escrevia os arranjos. Aqui no Brasil, o termo bandleader, em uma livre tradução, passou a ser conhecido como maestro.

Para entendermos a importância das big bands, precisamos falar das origens do jazz – estilo que nasceu da fusão entre a música europeia e a levada pelos escravos negros, mantendo boa parte dos elementos rítmicos e de improvisação da música africana. Ele surgiu em Nova Orleans, sul dos EUA, no início do século XX e tem dois pilares fundamentais: o ragtime e o blues. Em seus primórdios, o jazz era popular, alegre e feito para dançar.

Após a abolição da escravatura nos EUA (oficialmente em 1865), foram criados os Black Codes (leis para restringir os direitos dos negros) que, entre outras coisas, proibiam os tambores - na época da escravidão, já eram proibidos por alguns fazendeiros, temendo o seu uso como uma possível forma de comunicação entre os negros em caso de revolta generalizada. Os afro-americanos, então, criaram uma nova forma de tocar os instrumentos “brancos”, como o piano, com muito ritmo, quase como se estivessem tocando as suas percussões. Surgia o ragtime.

O ragtime, música popular dos salões de baile do sul dos EUA, era uma marcha com acompanhamento polifônico, feito com outra mão ou um segundo pianista, em ritmo tipicamente africano. Era executado pelos negros e mestiços (creoles) que conseguiram ter uma educação musical formal, técnica e teórica. Aqueles que não podiam pagar para aprender música ficavam com o blues - evolução do spirituals que surgiu nas igrejas segregadas dos negros. O blues também criou a característica blue note: adaptação na escala diatônica tradicional que diminui em meio tom as notas do terceiro e do quinto grau.

Mesmo libertos, os negros ainda sofriam forte discriminação e, segundo os Black Codes, podiam trabalhar apenas em algumas áreas, como, por exemplo, na música. Um pianista negro não era aceito em salas de concertos, mas poderia tocar em igrejas, bares, clubes ou bordéis.

Com uma colonização francesa e católica (a região foi comprada de Napoleão em 1803), Nova Orleans se diferenciava do resto protestante dos EUA com seus festivais de rua, música em velórios e a comemoração do Carnaval onde bandas marciais eram muito usadas. Nestas ocasiões, os adeptos do blues e do ragtime se encontravam e, enquanto alguns liam a partitura, os que não sabiam ler música tentavam se adequar a qualquer custo. Nascia o improviso - uma das características fundamentais do jazz. É importante dizer que, durante a escravidão, os negros eram encorajados a cantar, pois mercadores e donos de escravos acreditavam que a música e a dança os deixavam em melhor forma.

Na Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana (1861-1865), lutaram cerca de 180 mil negros que, durante o convívio militar, tiveram íntimo contato com as músicas marciais. Muitos aprenderam a tocar os instrumentos típicos das bandas: clarinetes, trombones, cornetas etc... Após o fim da guerra, os afro-americanos ficaram com os instrumentos velhos e avariados que o exército havia abandonado ou vendido a preço de ocasião. Talvez isto explique a grande profusão de sopros nas big bands e no jazz em geral.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) abriu caminho para a divulgação do jazz principalmente por duas razões. Em primeiro lugar, os músicos do exército norte-americano apresentaram o novo som à Europa (palco do conflito). Em segundo lugar, os EUA abriram uma base militar em Nova Orleans e, de acordo com os regulamentos do exército, os prostíbulos tiveram de fechar. Isso fez com que muitos músicos, desempregados, mudassem para Nova Iorque e também para a próspera e industrializada Chicago em busca de novas oportunidades de trabalho. Chicago acabou se tornando a nova capital do jazz.

Aproveitando o habitual clima de euforia pós-guerra, o jazz cresceu e se popularizou pelo mundo através das grandes bandas de swing. Nos anos 20, as big bands já eram um sucesso e, nos anos 30 e 40, tornaram-se a grande expressão do mercado musical norte-americano, levando enorme público a suas apresentações. As big bands eram baseadas em arranjos musicais que tanto podiam ser escritos como memorizados, “de ouvido”, já que muitos músicos de jazz não liam partituras. Estes arranjos tinham “janelas” com vários compassos dedicados aos improvisos individuais, dando liberdade criativa ao músico e proporcionando shows aos dançarinos. Uma forma de libertar o espírito que o negro, historicamente oprimido, havia criado. Este período ficou conhecido como a Era do Swing: dançante, vibrante, diferente, fora dos padrões tradicionais de até então. Uma das mais importantes orquestras foi a de Benny Goodman que, em uma atitude inovadora, formou a primeira big band mista (composta por músicos brancos e negros). Antes, as bandas eram compostas apenas por músicos brancos ou negros.

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945), entretanto, trouxe várias mudanças a um cenário que antes beneficiara as grandes orquestras populares: muitos músicos foram convocados para lutar ou, até mesmo, tocar no front e os custos das turnês, em solo norte-americano, tornaram-se quase proibitivos em época de esforço econômico dedicado totalmente à guerra. Um dos problemas era o racionamento de borracha e gás que dificultava o deslocamento de grupos numerosos e de seu equipamento, obrigando os músicos a viajarem em trens sempre lotados de soldados. Apagões e toques de recolher também prejudicavam os clubes e salões de dança e os instrumentos musicais deixaram de ser fabricados durante algum tempo. Além disto, o swing já estava se desgastando e o público parecia preferir as baladas românticas, que também faziam parte do repertório das big bands, interpretadas por crooners² como Frank Sinatra (como resistir a seu timbre aveludado?). Há também três outros fatos que podem ter contribuído para a decadência da Era do Swing nos EUA: nos relacionamentos, o baby boom; nos estúdios, a greve de 1942, e, nas apresentações ao vivo, a criação de uma taxa de entretenimento, em 1944.

Após o final da guerra, houve um aumento significativo da taxa de natalidade em vários países. O retorno dos soldados e a crença em dias melhores no mundo foi uma das causas do baby boom. Nos EUA, mais especificamente, também havia casais que, desde a Grande Depressão, estavam adiando os planos de terem filhos e aproveitaram o período de grande desenvolvimento econômico pelo qual passou o país, após 1945, oferecendo linhas de crédito para veteranos de guerra e amplo mercado de trabalho. Alguns acreditam que o baby boom possa ter afastado o público dos bailes, porque pais de crianças pequenas têm outras prioridades além de dançar.

Em 1942, o sindicato dos músicos norte-americanos promoveu uma greve por causa de questões relacionadas ao pagamento dos royalties das gravações e todos cruzaram os braços, recusando-se terminantemente a gravar. Isto levou a uma abertura do mercado fonográfico para os cantores, pois não eram sindicalizados. As gravações deste período costumavam ser acompanhadas por coros e as gravadoras tiveram que relançar discos antigos para sobreviver enquanto as big bands se mantinham bem longe dos estúdios e sem novos sucessos... A greve só acabou mesmo em 1944 e o episódio ficou conhecido como The 1942 Recording Ban.

Em 1944, entrou em vigor nos EUA um novo e curioso imposto de guerra que aumentava em 20% a conta de todos os frequentadores de locais que mantinham música para dança e/ou cantada! Clubes que forneciam música estritamente instrumental e que não fosse para dança estavam isentos. Se alguém se levantasse para dançar, 20% a mais seriam cobrados; se alguém cantasse, mais 20%... O percentual caiu para 10% em 1960 e somente acabou em 1965. Historiadores acreditam que este imposto estimulou o surgimento de um estilo que ia, deliberadamente, contra todas as regras da boa música dançante: o bebop. Bem diferente das big bands, o bebop era uma nova e contemplativa forma de jazz, instrumental, não dançante, com grupos menores, longos improvisos, pouquíssimos arranjos, grande sofisticação harmônica e complexidade rítmica, elitizando um estilo que, em sua origem, era popular.

Historiadores também afirmam que o desaparecimento do importante bandleader e trombonista Glenn Miller, em 15 de dezembro de 1944, marcaria o fim da Era do Swing e das big bands nos EUA. Depois da Segunda Grande Guerra, somente alguns poucos conseguiriam manter suas orquestras, a duras penas, como Duke Ellington e Count Basie. A partir daí, o jazz evoluiu para o bebop e deixou de ser dançante.

O fim da Segunda Guerra trouxe um novo cenário político e econômico internacional: enquanto o continente europeu, devastado, começava a sua reconstrução, os EUA despontavam como nação próspera – o país dobrou o seu parque industrial durante os anos de guerra – e nova potência mundial, substituindo a França como referência cultural brasileira.  Neste contexto, a moda das grandes orquestras de baile chega ao Brasil e, no próximo post, falaremos da euforia pós-guerra e de alguns grandes músicos e maestros, como Portinho (clarinete), Severino Araújo (clarinete), Waldir Calmon (piano) e Radamés Gnatalli, entre outros.

¹ Algumas formações tinham, ao invés do baixo e da guitarra, tuba e banjo.

² Como eram conhecidos os cantores das big bands.



Na foto, Glenn Miller e sua bigband. O vídeo mostra a orquestra de Glenn Miller sob a regência de Tex Beneke, em 1946, tocando o clássico In The Mood (Joe Garland e Andy Razaf). Tex Beneke era cantor e saxofonista e trabalhou com Miller. Após o desaparecimento do bandleader, Tex conseguiu uma autorização dos herdeiros para prosseguir com a orquestra e o fez até 1950. Note as "janelas" no arranjo para os improvisos dos músicos, a pulsação da música para dança e o tamanho da banda com naipes de metais e palhetas e cozinha. Nesta época, Tex reproduziu a formação que Miller usava quando se apresentava com a orquestra nas frentes de batalha, adicionando um naipe de cordas. Mas a crítica recebeu mal esta inovação em solo americano e ele voltou à formação original, sem cordas.
Fontes:


A Era das Big Bands - Parte II


O Sucesso no Brasil

Orquestra Tabajaras com Severino Araújo

Com o término da Segunda Grande Guerra, em 1945, a euforia tomou conta dos países aliados e os anos subsequentes resgataram a exuberância e o luxo perdidos durante o sangrento conflito. Havia um amplo espírito de esperança, apesar de a bipolarização do mundo entre EUA e URSS - ou melhor, entre capitalismo e comunismo - continuar gerando tensões que, por vezes, colocaram o planeta à beira de um colapso nuclear. Este período, que durou cerca de cinquenta anos, ficou conhecido como Guerra Fria. O Brasil optou por alinhar-se aos EUA, passando a adotá-lo como nova referência cultural.

Os Estados Unidos propagavam pelo mundo uma nova forma de viver, o american way of life, através principalmente de suas indústrias fonográfica e cinematográfica: moda, carros, eletrodomésticos... Tudo resumia o novo estilo de vida pós-guerra, festejando o triunfo da modernidade aliado aos já tradicionais valores burgueses. Se, durante a Segunda Guerra, as mulheres foram praticamente obrigadas a se lançar no mercado de trabalho, porque os homens estavam nos campos de batalha, nos anos 50 viveu-se o “conforto pós-guerra”, havendo um retrocesso deste comportamento com sua volta ao clássico papel de mãe, dona-de-casa e esposa. Os fortes valores morais da década de 50 também dificultavam o convívio entre os jovens, pois não havia diálogo franco sobre sexo, os colégios mistos eram raros e a severa vigilância dos pais inibia o contato entre rapazes e moças, gerando muita curiosidade e expectativa. Nos eventos sociais, esta juventude reprimida podia se aproximar e interagir.

Politicamente, o fim da guerra também marcou o fim de quinze anos de ditadura Vargas no Brasil, mas Getúlio Vargas voltou à presidência em 51, através de eleições diretas, e suicidou-se em 54, “deixando a vida para entrar na História”, como escreveu em sua carta-testamento. A instabilidade política que se seguiu foi intensa, porém breve. Em 31 de janeiro de 1956, assumia Juscelino Kubitschek que encarnou todo o otimismo do final da guerra e trouxe um desenvolvimento rápido através de seu Plano de Metas (50 anos em 5), abrindo a economia brasileira ao capital estrangeiro e construindo uma cidade inteira no, até então inexplorado, Planalto Central. O período de seu governo foi chamado anos dourados e ele recebeu o modernoso apelido de presidente bossa-nova.
   Do ponto de vista econômico, a Segunda Grande Guerra nos trouxe alguns benefícios e o País conseguiu acumular expressivo volume de reservas cambiais, havendo uma real melhoria no padrão de vida do brasileiro. A boa economia, o desejo de recuperar o conforto que lhes havia sido tirado durante o esforço de guerra e os costumes sociais da época fizeram eclodir uma demanda reprimida de consumo. A própria moda, no Brasil e em grande parte do mundo, foi influenciada por este novo ideário de vida e, com o fim da guerra e do racionamento de tecidos, a mulher do início dos anos 50 se tornou mais feminina e glamourosa, fazendo com que o New Look de Dior, lançado em 1947, se transformasse na silhueta símbolo dos anos 50 - uma cintura marcada com saias muito rodadas e volumosas que chegavam aos tornozelos. Metros e metros de tecido eram gastos na confecção deste modelo que ainda tinha acessórios luxuosos, como luvas, saltos altos e joias. Uma moda feita, sob medida, para uma mulher que ansiava pela volta da sofisticação. Dior, que morou nos EUA enquanto a Europa foi assolada por combates, voltou à França para lançar a nova tendência.

Neste momento, florescem a produções intelectuais e artísticas brasileiras - alguns influenciados pelo nacionalismo; outros, pela cultura de massa importada dos Estados Unidos. As músicas norte-americanas começam a se destacar em nossas paradas de sucesso (execução e vendagem) e isto passa a incomodar alguns críticos. Surgem, então, as primeiras big bands brasileiras: curiosamente, a mesma guerra que decretou o fim da era das big bands, nos EUA, marcou o início da nova febre aqui no Brasil – onde houvesse um palco e dançarinos dispostos a rodopiar pelo salão, lá haveria uma orquestra. Para a juventude, os bailes de debutantes, de formatura e as festinhas em casas de família (os chás dançantes) passaram a ser uma importante e fundamental forma de integração com o sexo oposto. É interessante ressaltar que, no Brasil, o termo big band foi livremente traduzido como orquestra.

As orquestras tocavam em palcos nobres, como clubes e hotéis, e também em lugares mais populares, como gafieiras e dancings, e o eclético repertório poderia reunir Glenn Miller, Ary Barroso e Noel Rosa. O período compreendido entre o fim da Segunda Grande Guerra e o começo dos anos 60 produziu a mais sofisticada geração de músicos que o Brasil já teve: maestros, arranjadores, profissionais com formação internacional e grande conhecimento de harmonia e técnica. Aníbal Augusto Sardinha (o Garoto), Esmeraldino (cavaquinho), Orlando Silveira (acordeon), Portinho (clarinete), Severino Araújo (clarinete), Waldir Calmon (piano) e os maestros Leo Peracchi e Radamés Gnatalli, só para citar alguns.

Leo Peracchi e Radamés Gnatalli foram maestros da rádio Nacional: Peracchi era responsável pelo segmento erudito da rádio, e Gnatalli, pelo popular. Suas orquestras, com naipe de cordas inclusive, gravaram vários discos e acompanharam cantores famosos, mas nunca foram big bands no mais puro sentido da expressão, pois não tocavam em bailes e os improvisos musicais não eram frequentes em seus arranjos. No entanto, é fundamental falar nestes dois gênios a quem a música brasileira tanto deve. Segundo músicos como Tom Jobim, Dory Caymmi e alguns historiadores, Peracchi e Gnatalli foram os grandes responsáveis por modernizar a orquestração popular brasileira, influenciando novos arranjadores. O disco Por Toda a Minha Vida, da cantora Lenita Bruno (1959), composto apenas por canções de Tom e Vinicius, teria sido um divisor de águas por causa dos surpreendentes arranjos de Leo Peracchi.

Podemos falar de várias orquestras de baile, que também costumavam lançar discos e trabalhar em rádios, como a do cantor El Cubanito que, apesar do apelido, era o brasileiro Álvaro Francisco de Paula. Álvaro montou uma big band de ritmos afro-cubanos muito popular na década de 50 e chegou a gravar, com o pianista Waldir Calmon, o enorme sucesso Cao, Cao Mani Picao (J. Carbó Menendez). Outra orquestra de grande prestígio era a do maestro Ivan Paulo, mais conhecido como Maestro Carioca que, além dos bailes, tocou na rádio Nacional e, posteriormente, na rádio Tupi. No Dancing Brasil, atuava a Os Copacabana e, reinando absoluta no estilo gafieira, a do trombonista Raul de Barros.

Mas nenhuma big band foi tão famosa e longeva no Brasil como a Tabajaras, do maestro e clarinetista Severino Araújo. Lançando-se em intermináveis turnês pelo país, a Tabajaras conseguiu sobreviver à decadência do rádio, veículo que indiretamente acabava promovendo o nome de suas orquestras contratadas. A administração rigorosa de seu bandleader também ajudou a manter o grupo coeso ao longo dos anos o qual se destacou pela excelência de músicos formados na exigente escola do frevo. Com imponentes arranjos e improvisos, inovou, trazendo ritmos genuinamente brasileiros, como o chorinho e o samba-canção, para o público dos salões de baile, adaptando o estilo norte-americano das big bands à nossa realidade.¹

Talvez o(a) leitor(a) estranhe o fato de eu não ter mencionado a orquestra de meu pai, Waldir Calmon, mas esta não era a tônica de seu trabalho. Ele usava a formação menor, o conjunto, com muito mais frequência.

No próximo post, falaremos sobre os motivos que levaram ao declínio das big bands (ou orquestras de baile) no Brasil.


¹ Antes da moda das big bands no Brasil, o regional era o formato mais constante de grupo musical. Apenas com instrumentos acústicos, era normalmente composto por violão de sete cordas, violão de seis cordas, bandolim, flauta, cavaquinho e pandeiro.


Na foto acima, orquestra Tabajaras sob o comando de seu maestro Severino Araújo. O vídeo mostra o choro Espinha de Bacalhau (Severino Araújo) em solo espetacular de sax alto - infelizmente, o nome do saxofonista não foi citado e, apesar de minhas buscas na internet, não consegui identificá-lo. Se alguém souber o nome do solista, por favor, comunique-se comigo, pois faço questão de sempre dar o crédito ao artista. Podemos perceber o arranjo típico de big band para este ritmo bem brasileiro.
Fontes:
Livros:
  • Coleção Nosso Século – Vol 4 (A Era dos Partidos), SP, Ed Abril, 1980
  • MARANHÃO, Ricardo, O Governo Juscelino Kubitschek, SP, Ed Brasiliense, 1988, 5ª edição
  • MOSTARO, Carlos Décio /e outros/, História Recente da MPB em Juiz de Fora – 1º tomo, MG, Ed Independente, 1977
  • ALMEIDA, Rui Gomes de, Ideias e Atitudes, RJ, Livraria José Olímpio Editora, 1965
  • CARDOSO, Míriam Limoeiro, Ideologia do Desenvolvimento (Brasil: JK-JQ), RJ, Ed Paz e Terra, 1978, 2ª edição
  • AQUINO, Rubim Santos Leão de /e outros/, História das Sociedades Modernas às Sociedades Atuais,  RJ, Ed Ao Livro Técnico, 1978
  • LAMBERT, J., América Latina – Estruturas Sociais e Instituições Políticas, Cia Ed Nacional, SP, 1969


Jornais:
  • BÁRBARA, Danúsia, “Para Ler e Relembrar”, JB, RJ, 27/06/1975, caderno B, pag 01
  • SCHILD, Suzana, “Feito Para Dançar – o Som de Waldir Calmon Continua na Praça”, JB, RJ, 02/07/1979, caderno B, pag 01
  • O Silêncio de um Som Feito Para Dançar”, JB, RJ, 12/04/1982, caderno B, pag 01
  • BREAN, Denis, “Waldir Calmon”, Gazeta Esportiva, SP, 29/03/1960, coluna O Rádio e a TV, pag 07


Revistas:
  • Música Para Dançar – Segredo Simples de Waldir Calmon”, Revista do Rádio, RJ, 29/05/1965, pag 34
  • O Sucesso do Cantor Fernando Barreto”, Revista do Rádio, RJ, 07/06/1957, pag 28
  • TÁVOLA, Arthur da, Revista Amiga, RJ, Ed Bloch, 28/04/1982, última pág


Entrevistas com frequentadores de bailes de orquestras


Sites: