Com o término da Segunda Grande Guerra, em 1945, a euforia tomou conta dos países aliados
e os anos subsequentes resgataram a exuberância e o luxo perdidos durante o
sangrento conflito. Havia um amplo espírito de esperança, apesar de a
bipolarização do mundo entre EUA e URSS - ou melhor, entre capitalismo e
comunismo - continuar gerando tensões que, por vezes, colocaram o planeta à
beira de um colapso nuclear. Este período, que durou cerca de cinquenta anos,
ficou conhecido como Guerra
Fria. O Brasil optou por alinhar-se aos EUA, passando a adotá-lo como nova
referência cultural.
Os Estados Unidos
propagavam pelo mundo uma nova forma de viver, o american way of life, através
principalmente de suas indústrias fonográfica e cinematográfica: moda, carros,
eletrodomésticos... Tudo resumia o novo estilo de vida pós-guerra, festejando o
triunfo da modernidade aliado aos já tradicionais valores burgueses. Se,
durante a Segunda Guerra, as mulheres foram praticamente obrigadas a se lançar
no mercado de trabalho, porque os homens estavam nos campos de batalha, nos
anos 50 viveu-se o “conforto pós-guerra”, havendo um retrocesso deste
comportamento com sua volta ao clássico papel de mãe, dona-de-casa e esposa. Os
fortes valores morais da década de 50 também dificultavam o convívio entre os
jovens, pois não havia diálogo franco sobre sexo, os colégios mistos eram raros
e a severa vigilância dos pais inibia o contato entre rapazes e moças, gerando muita
curiosidade e expectativa. Nos eventos sociais, esta juventude reprimida podia
se aproximar e interagir.
Politicamente, o fim da guerra também
marcou o fim de quinze anos de ditadura Vargas no Brasil, mas Getúlio Vargas
voltou à presidência em 51, através de eleições diretas, e suicidou-se em 54,
“deixando a vida para entrar na História”, como escreveu em sua carta-testamento. A instabilidade política que se seguiu
foi intensa, porém breve. Em 31 de janeiro de 1956, assumia Juscelino
Kubitschek que encarnou todo o otimismo do final da guerra e trouxe um
desenvolvimento rápido através de seu Plano
de Metas (50 anos em 5),
abrindo a economia brasileira ao capital estrangeiro e construindo uma cidade
inteira no, até então inexplorado, Planalto Central. O período de seu governo
foi chamado anos dourados e ele recebeu o modernoso apelido de presidente bossa-nova.
Do ponto de vista econômico, a Segunda Grande
Guerra nos trouxe alguns benefícios e o País conseguiu acumular expressivo
volume de reservas cambiais, havendo uma real melhoria no padrão de vida do
brasileiro. A boa economia, o desejo de recuperar o conforto que lhes havia
sido tirado durante o esforço de guerra e os costumes sociais da época fizeram
eclodir uma demanda reprimida de consumo. A própria moda, no Brasil e em grande
parte do mundo, foi influenciada por este novo ideário de vida e, com o fim da
guerra e do racionamento de tecidos, a mulher do início dos anos 50 se tornou
mais feminina e glamourosa, fazendo com que o New
Look de Dior, lançado em
1947, se transformasse na silhueta símbolo dos anos 50 - uma cintura marcada
com saias muito rodadas e volumosas que chegavam aos tornozelos. Metros e
metros de tecido eram gastos na confecção deste modelo que ainda tinha
acessórios luxuosos, como luvas, saltos altos e joias. Uma moda feita, sob
medida, para uma mulher que ansiava pela volta da sofisticação. Dior, que morou
nos EUA enquanto a Europa foi assolada por combates, voltou à França para
lançar a nova tendência.
Neste momento, florescem a produções intelectuais
e artísticas brasileiras - alguns influenciados pelo nacionalismo; outros, pela
cultura de massa importada dos Estados Unidos. As músicas norte-americanas
começam a se destacar em nossas paradas de sucesso (execução e vendagem) e isto
passa a incomodar alguns críticos. Surgem, então, as primeiras big bands brasileiras: curiosamente, a
mesma guerra que decretou o fim da era das big
bands, nos EUA, marcou o início da nova febre aqui no Brasil – onde
houvesse um palco e dançarinos dispostos a rodopiar pelo salão, lá haveria uma
orquestra. Para a juventude, os bailes de debutantes, de formatura e as
festinhas em casas de família (os chás
dançantes) passaram a ser uma importante e fundamental forma de integração
com o sexo oposto. É interessante ressaltar que, no Brasil, o termo big band foi livremente traduzido como orquestra.
As orquestras tocavam em palcos
nobres, como clubes e hotéis, e também em lugares mais populares, como
gafieiras e dancings, e o
eclético repertório poderia reunir Glenn Miller, Ary Barroso e Noel Rosa. O período compreendido entre o
fim da Segunda Grande Guerra e o começo dos anos 60 produziu a mais sofisticada
geração de músicos que o Brasil já teve: maestros, arranjadores, profissionais
com formação internacional e grande conhecimento de harmonia e técnica. Aníbal
Augusto Sardinha (o Garoto),
Esmeraldino (cavaquinho), Orlando Silveira (acordeon), Portinho
(clarinete), Severino Araújo (clarinete), Waldir Calmon (piano) e os maestros
Leo Peracchi e Radamés Gnatalli, só para citar alguns.
Leo Peracchi e Radamés Gnatalli foram
maestros da rádio Nacional: Peracchi era responsável pelo segmento erudito da
rádio, e Gnatalli, pelo popular. Suas orquestras, com naipe de cordas
inclusive, gravaram vários discos e acompanharam cantores famosos, mas nunca
foram big bands no mais puro sentido
da expressão, pois não tocavam em bailes e os improvisos musicais não eram
frequentes em seus arranjos. No entanto, é fundamental falar nestes
dois gênios a quem a música brasileira tanto deve. Segundo músicos como Tom
Jobim, Dory Caymmi e alguns historiadores, Peracchi e Gnatalli foram os grandes
responsáveis por modernizar a orquestração popular brasileira, influenciando
novos arranjadores. O disco Por
Toda a Minha Vida, da cantora Lenita Bruno (1959), composto apenas por
canções de Tom e Vinicius, teria sido um divisor de águas por causa dos
surpreendentes arranjos de Leo Peracchi.
Podemos falar de várias orquestras de
baile, que também costumavam lançar discos e trabalhar em rádios, como a do
cantor El Cubanito que, apesar do apelido, era o
brasileiro Álvaro Francisco de Paula. Álvaro montou uma big band de ritmos afro-cubanos muito popular na década de 50 e
chegou a gravar, com o pianista Waldir Calmon, o enorme sucesso Cao, Cao Mani Picao (J. Carbó Menendez). Outra orquestra
de grande prestígio era a do maestro Ivan Paulo, mais conhecido como Maestro Carioca que, além dos bailes, tocou na rádio
Nacional e, posteriormente, na rádio Tupi. No Dancing
Brasil, atuava a Os
Copacabana e, reinando absoluta
no estilo gafieira, a do trombonista Raul de Barros.
Mas nenhuma big
band foi tão famosa e longeva no Brasil como a Tabajaras, do maestro e clarinetista Severino
Araújo. Lançando-se em intermináveis turnês pelo país, a Tabajaras conseguiu sobreviver
à decadência do rádio, veículo que indiretamente acabava promovendo o nome de
suas orquestras contratadas. A administração rigorosa de seu bandleader também ajudou a manter o grupo coeso
ao longo dos anos o qual se destacou pela excelência de músicos formados na
exigente escola do frevo. Com imponentes arranjos e improvisos, inovou,
trazendo ritmos genuinamente brasileiros, como o chorinho e o samba-canção,
para o público dos salões de baile, adaptando o estilo norte-americano das big
bands à nossa realidade.¹
Talvez o(a) leitor(a) estranhe o fato de eu não
ter mencionado a orquestra de meu pai, Waldir Calmon, mas esta não era a tônica
de seu trabalho. Ele usava a formação menor, o conjunto, com muito mais frequência.
No próximo post, falaremos sobre os motivos que levaram ao declínio das big bands (ou orquestras
de baile) no Brasil.
¹ Antes da moda das big bands no Brasil, o regional era o formato mais constante de grupo
musical. Apenas com instrumentos acústicos, era normalmente composto por violão
de sete cordas, violão de seis cordas, bandolim, flauta, cavaquinho e pandeiro.